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"Somente quem tem o caos dentro de si pode dar à luz uma estrela bailarina." (Nietzsche)

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Não Sei Quantas Almas Tenho
Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não atem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.
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Terça-feira, Dezembro 22, 2009


É ...

Acho que isso aqui vai morrer mesmo, tenho escrito muito pouco normalmente, e sei que final e começo de ano eu não escrevo praticamente nada. Mas não fiquem chateados, vocês podem achar coisas interessantes aqui na Capitu onde tenho uma coluna (que atualizo esporadicamente).

hasta


posted by TRUNKAEL H MAIRS 1:16 PM

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Quarta-feira, Setembro 30, 2009


A ciência é nossa Matrix

Para perceber o mal que a ciência faz a nosso espírito devemos primeiramente perceber as características da ciência. Pergunto as pessoas a minha volta para que serve a ciência e obtenho uma resposta interessante “para que o ser humano tenha melhores meios de sobrevivência”.
Pode ser uma busca pelo conhecimento da natureza e do universo, para ser uma busca por uma compreensão de nossa existência, mas principalmente para melhorar nossa ”qualidade que vida”. Venderam a ciência muito bem para nós e hoje somos escravos de toda a tecnologia que foi criada para suprir nossas necessidades.

A ciência nos faz viver mais e melhor, nos dá conforto e segurança, nos diverte, distrai e acalma. A tecnologia é a forma física da ilusão. Na medida em que a ciência nos dá respostas e cria meios para que tenhamos uma vida mais segura nos apegamos a ela. O nosso apego ao ego se torna um apego à tudo aquilo que pode nos proteger ou proporcionar qualquer forma de conforto.

Tendo todas as necessidade plenamente saciadas pela ciência não precisaremos buscar nada além, não precisaremos mergulhar em nosso interior para obter o conhecimento, tudo vem de fora, especialmente formatado para ser digerido sem esforço.


posted by TRUNKAEL H MAIRS 3:01 PM

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Não há nada antes - Não há nada depois

Nas divertidas discussões sobre o início do universo sempre tem um “espertinho” questionando o que existia antes do Big Bang. Não existia “antes” pois não existe tempo dentro de um horizonte de eventos na singularidade de uma densidade infinita. O tempo passou a existir no momento da explosão.
Em outra discussão questionam o que há no futuro, e novamente temos em vista a singularidade, seja na tecnologia ou na contração do universo. O que não é mais que um reflexo da própria vida humana, afinal, saímos da inexistência e caminhamos para inexistência.

O único momento que temos é exatamente o presente, o nosso passado é tão ilusório quanto nossa projeção do futuro. Não existirá um amanhã, nunca existiu um ontem, só existe o hoje.
Sendo de onde vem essa mania humana de se preparar para o futuro? Pensar no amanhã? Sofrer por antecipação? A nossa vida só acontece no agora, para não perder esse momento fantasiamos o futuro que nunca existirá.

”O propósito de ponderar sobre a morte e a impermanência é inverter a tendência perniciosa da mente humana de observar tudo como sendo mais estável do que realmente é.” B. Alan Wallace


posted by TRUNKAEL H MAIRS 1:47 PM

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Quarta-feira, Agosto 12, 2009


Coisas da vida

Saudações galera, estou meio sumido pois a vida me consome, mas não estou inerte, aqui tem os 4 textos que publiquei na Revista Capitu, e abaixo um post gigante sobre o que tenho feito nos ultimos 4 meses, mas leiam só os textos da Capitu, o post grande é só para registrar os acontecimentos. Boa leitura!

10 anos de Ilusão
A Importância do Confronto
Existência e Finitude
Por que os sábios do Oriente não criaram a ciência moderna?


posted by TRUNKAEL H MAIRS 11:38 AM

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O segundo grande post

Não sei exatamente quando perdi minha força de vontade, mas só percebi quando não mais conseguia acordar antes de meio dia. Ano passado foi um ano de algum crescimento empresarial, mas nenhum crescimento espiritual ou intelectual. Minha vida se resumia em acordar tarde e trabalhar, e eu efetivamente não queria nada além disso.
A filosofia não ajuda muito quando a força de vontade está escassa, na verdade tudo que se poderia fazer era pensar em quanto a vida poderia ser insuportável. Em algumas semanas eu conseguia ter picos motivacionais, se parecia com um transtorno bipolar, o problema é que eu não tinha consciência disso.

O grande aprendizado de verdade foi entender como a angustia é deslocada para algum fator externo, como se tudo na vida fosse ser resolvida junto com a satisfação de um desejo. Era como se eu simplesmente esperasse tudo acontecer, as coisas viriam, sempre vem. Perdi um ano esperando, mas ainda não era o suficiente.
As coisas pioraram quando descobri um jogo chamado Lineage, para quem está de fora isso parecia de pouca importância, mas para aquele que não conseguia mais se divertir com nada esse foi o vício mais destruidor da minha vida. Comecei a passar muitas horas jogando e todos os fins de semana eram dedicados ao jogo.

O problema do vício em jogos é que você tem total noção de que aquele tempo gasto ali você perde para sempre, é algo que nunca será recuperado, e efetivamente você não terá ganhado absolutamente nada com isso. Mas era agradável jogar, era uma parte boa da vida, na verdade uma “segunda vida” mais interessante que a original.
Quando você cultiva uma vida virtual compensadora não há muitos motivos para dar atenção a sua vida real incompreensivelmente chata. O problema dos MMORPG é justamente esse, mesmo que não seja especificamente o Second Life qualquer um deles se tornará sua segunda vida, e eu já sabia isso jogando RPG nas salas de bate-papo UOL 10 anos atrás.

O fato é que Durante o horário trabalho não conseguia mais me concentrar, ficava o dia inteiro no fórum do servidor discutindo bugs, dando sugestões etc. Como se não bastasse ainda comecei a jogar um desse joguinhos de browser, o Ikariam, assim eu dividia (e perdia) mais o meu tempo e perdi 80% da minha produtividade.
Nem eu conseguia suportar meu mal humor, chegava já tarde, não falava nada com ninguém, colocava um fone de ouvido e “trabalhava”, minha melhor hora era as 19h quando finalmente começava a jogar e ficava às vezes até 5 da manhã. A situação começava a se tornar insuportável, nesse estado eu não conseguiria nenhuma força para sair do fundo do poço.

O pior é que o trabalho que eu gostava tanto se tornava algo maçante, eu não conseguia terminar nada, tinha deixado o capricho de lado para fazer o pior que eu poderia. Claro que eu conseguia valer minha presença, enrolava mais fazia, não fazia bem, mas fazia. Obviamente eu me sentia mal por isso, nas boas semanas eu ficava pensando o quanto produzi pouco na semana anterior e tentava dar conta, mas a semana boa acabava rápido.
Algo que ainda conseguia manter apesar de tudo era um hábito social saudável, saia pelo menos 3 vezes por semana, na época mais brutal do Lineage isso chegou a diminuir a zero, mas disso eu consegui me recuperar rapidamente. Éramos freqüentadores de carteirinha de um boteco aqui do bairro, não havia nada de muito compensador, mas eu sabia que tinha que gastar minha energia em alguma coisa.

Esse ano as coisas melhoraram pois uma amiga minha montou uma república ao lado da minha, assim minha vida social deu uma melhorada, pois eu comecei a freqüentá-la quase todos os dias. A maioria das pessoas que também freqüentavam a republica eram estudantes do curso de psicologia, eu como pseudo-filósofo não deixava passar oportunidades para discutir qualquer coisa por pura diversão.
Obtive mais que diversão, eu precisava me preparar melhor e resolvi voltar a ler, recomecei a ler Mil Platos, principalmente para ter argumentos contra a psicanálise, no final as discussões mais bacanas eram sobre psicanálise, eu era contra e quase todos eram a favor. Deleuze e Guattari me ajudavam na minha cruzada anti-Freudiana.

O que salvava minha vida eram essas conversas, todo o resto era artificial, a única coisa que me restava era uma consciência filosófica de evolução intelectual. O interessante era que eu não me importava com minha atual inércia, na verdade o que eu realmente aprendi nisso tudo foi exatamente como a situação nos engole sem a gente perceber.
Certo dia aconteceu algo deveras interessante, estava eu na rede dessa república, completamente anti-social, sem querer nenhuma interação apenas trocando uma idéia com o amigo mais próximo. Nesse dia tinha uma moça que eu não conhecia naquela casa, imediatamente minha atenção se focou nela. Ela parecia tão leve e falava com tanta suavidade que possivelmente fosse uma invenção de minha mente.

Fiquei encantado com o jeito dela, mas obviamente não me atrevi a lhe dirigir a palavra, nem mesmo a encará-la. Pra minha surpresa foi ela que veio entrar na nossa conversa sobre “sentimentos inconceituáveis”, pois eu tentava explicar o sentimento que tomou conta de mim ao ver essa moça. Ou seja, o próprio objeto da discussão veio se discutir. O que me lembro era que a conversa não durou muito, mas vez ou outra ela virava sua atenção a nós.
Meu interesse se aumentava e assim que consegui seu e-mail tentei qualquer contato que me fizesse sentir mais próximo dela “O mais interessante é que talvez não existisse uma conversa sobre sentimentos inconceituáveis, se você não tivesse despertado em mim um desses sentimentos. Conhecer pessoas como você me dá um novo sopro de vida. Saio da inércia para voltar à eterna busca.”

Ela respondeu o e-mail praticamente para dizer que não responderia e do mesmo que jeito que ela apareceu em minha vida sumiu completamente. Mas eu continuava inquieto, alguma coisa se movia, eu precisava voltar a realidade e num movimento quase inconsciente eu comprei o livro “Desafios da Terapia”. Eu já tinha lido os 3 romances de Irvin Yalom e tinha gostado muito, mas eles não fariam nenhuma diferença perto do que esse livro fez.
Nas várias conversas sobre psicologia um amigo indicava esse livro, apesar de ter sempre me interessado por psicologia foi a primeira vez que tive um denso contato com a abordagem existencial. A filosofia existencial eu conhecia bem, mas realmente não tinha idéia de como aplicá-la efetivamente na minha vida, algo que logo na introdução desse livro aprendo: “retire os obstáculos que a evolução virá naturalmente”.

Não posso resumir o livro nessa frase, mas posso dizer que foi ela a força motriz para que eu saísse do ciclo vicioso que me encontrava. Era hora de finalmente voltar à vida e mesmo relutante eu deveria tirar meu maior obstáculo: Lineage. “Galera vou parar de jogar pelo menos por um tempo pois minha vida me quer de volta e gosto muito de minha vida para não obedecê-la. Até mais”
Parece uma decisão muito fácil, era simplesmente parar de jogar e pronto. Mas eu não conseguiria nunca explicar o quão o vício pode causar dor se não for saciado. Eu tinha uma vida ali, tinha feito bons amigos e ótimos inimigos, tinha me tornado uma das peças chaves de todas as guerras, eu era conhecido e reconhecido. Não é simples abandonar uma vida assim, era um suicídio virtual de alguém que parecia estar no auge da vida.

Então depois de ter me tornado um importante personagem do servidor eu simplesmente sai, agora finalmente eu teria tempo para fazer o que há tempos eu queria: voltar para o kung fu. Apesar de ainda não ter parado com os outros joguinhos (Ikariam, MyBrute e Katsuro) o primeiro obstáculo tinha sido retirado, agora finalmente o horário da noite estava livre, e na mesma segunda feira eu já voltava ao Tao Tien Ti.
Nesse primeiro dia não conseguiria treinar por absoluta falta de preparo físico. Para conseguir pelo menos treinar eu teria que retirar outro obstáculo: o cigarro. Se eu achava que parar com Lineage seria difícil nem imaginava o quão seria complicado parar de fumar. Já tinha tentado parar outras vezes mas não achava motivos suficientes para isso, agora eu tinha um motivo especial, comecei a fumar muito menos mas não conseguia me desvincular.

Sempre falo pras pessoas que o cigarro é a pior das drogas pois é a mais acessível. Ali pode ter um alívio imediato para espera, angustia ou stress, mas esse mal hábito guarda muito mais que uma possibilidade de câncer. O hábito de fumar começa a pautar sua vida, e quando você não tem um cigarro numa madrugada fria e insone que você percebe o domínio que aquilo exerce sobre você.
Eu não precisava parar completamente, eu queria era desvincular do hábito. No começo eu conseguia ficar o dia inteiro sem fumar, mas chegava em casa e era a primeira coisa que eu fazia, como um tipo de compensação pelo desafio. É fácil perceber a dependência física da nicotina, quando eu via meu sócio sair para fumar meu corpo arrepiava. Tudo que você pensa quando para de fumar é o quão seria bom dar um trago em um cigarro nos momentos de tensão ou espera.

Minha luta com o cigarro durou cerca de 3 meses, eu comecei fumando apenas um cigarro por dia, mas logo aumentava e no fim de semana já estaria fumando um maço durante alguma festa. Certo dia simplesmente parei de comprar e me aquietei, depois disso dei um trago ou outro com algum amigo, mas o hábito se foi completamente.
Depois de desvincular do hábito de fumar foi até fácil deletar todos os outros jogos que eu tinha, daí pra frente eu teria que efetivamente preencher meu tempo dentro da empresa com trabalho, única e exclusivamente. A melhora foi brusca, a motivação aumentou instantaneamente, até o porteiro do meu prédio percebeu a mudança.

Nisso o kung fu teve papel essencial, não só por que eu queria voltar a minha melhor forma, mas por que ele se tornou minha válvula de escape. No começo eu chegava no começo da aula tão estressado que ficava de cara fechada e gastava toda força que eu tinha, isso me deixava exausto e finalmente eu conseguiria dormir antes da meia noite.
As coisas começaram a se acertar e agora eu teria que consertar tudo aquilo que estraguei durante o tempo em que estive morto. Já que conseguia novamente dormir cedo voltei a acordar cedo, o que foi essencial para a melhora visível do meu humor. Também melhorei minha alimentação pois já sabia que os nutrientes tem um importante papel no humor e bem estar.

É engraçado que coisas que todo mundo sempre soube de repente se tornam mais óbvias quando são praticadas. Todo mundo sabe que fazer exercício físico é essencial não só para o corpo, mas principalmente para a mente. A boa alimentação é tão óbvia que a gente esquece que ela funciona para balancear toda transmissão de neurotransmissores como noradrenalina e serotonina que são diretamente ligados ao bem estar.
Embora eu ainda não tenha uma dieta especifica de alimentação faço meus testes todos os dias, mudando minha alimentação e observando a mudança no meu humor. O importante é não deixar a força de vontade se esvair e transformar isso num hábito real.

Do ciclo vicioso em que me encontrava finalmente criei meu ciclo virtuoso, daí pra frente a melhora na minha vida foi tão perceptível que as pessoas começaram a me parabenizar por isso. Os últimos vícios que eu tinha foram completamente abandonados, seja os outros joguinhos ou até mesmo a coca cola. Com todo o tempo que sobrou comecei a comprar muitos livros e voltei a ler o máximo que consigo.
De essencial para melhorar a vida é exercício e alimentação, tendo os neurotransmissores balanceados foi menos doloroso mudar completamente meus hábitos, dessa vez além do estudo de psicologia e filosofia comecei a estudar o Taoismo.

O Kung Fu acabou se tornando mais que um simples exercício físico. Observando a filosofia do Tao percebi que posso evoluir muito mais se eu conseguir utilizar o tempo da arte marcial para a meditação e contemplação. Deixei de lado minha arrogância para ser discípulo dedicado, assim tenho (obviamente) aprendido muito mais do que eu pensei.
As práticas do Tao apreendidas dentro do Kung Fu se tornam também ferramentas eficazes para os problemas cotidianos. Atualmente tento aprender a controlar as fincadas de raiva que acontecem inesperadamente após a fala dos budas que me rodeiam. Mas nada que eu não consiga superar.

Observando toda essa mudança sob um teoria mágica, como a Hermética ou Caótica, fica claro que o movimento de energia que eu fiz criou um novo fluxo de energia completamente favorável a mim e a todos que me rodeiam. Agora é só manter a mente forte e permanecer no ciclo virtuoso.
Apesar da mudança polar ser algo natural é possível mudar a polarização de maneira a ficar sempre dentro do fluxo positivo de energia, para isso eu criei uma rotina de mudar minha rotina sempre que a polarização tende para o lado negativo. Junto com isso tudo eu procuro trazer todos que estão ao meu redor para o mesmo fluxo de energia positiva, assim todos os ambientes se tornam fontes seguras de energia e bem estar.

O universo conspirando a meu favor ainda me deu alguns presentinhos bastante interessantes, coisas externas que acontecem independente de minha atuação mas que melhoram demais minha vida. A partir de agora tenho um novo começo, tudo que tenho que fazer é continuar com essa onda boa e não me deixar abalar pelas pequenas falhas que ainda ocorrem.

Hasta!


posted by TRUNKAEL H MAIRS 11:20 AM

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Sexta-feira, Julho 03, 2009


Das coisas que nos rodeiam

Não são as coisas que nos perturbam, e sim a nossa interpretação das coisas.
Schoppenhauer


Falar sobre as formas subjetivas de como nossa vaidade molda nosso discurso não é algo simples, ainda menos simples é entender essa relação a partir da percepção de outra pessoa. Contra um comportamento defensivo que não se baseia em lógica, mas sim em sentimento, não há nenhum argumento que possa elucidar qualquer tipo de questão existencial. É necessário mais que uma admiração, mas uma confiança na sabedoria alheia para nos permitirmos entender certos vícios em nosso comportamento.

Um estudo superficial do budismo me fez criar um policiamento quanto a atuação de meu narcisismo em meus discursos e quanto mais eu policio o meu discurso, naturalmente policio o discurso das pessoas que me rodeiam. A percepção da arrogância e prepotência alheia nada mais é que o reflexo do modo como eu agia desde sempre com todos.
Para fugir de imposições forçadas devo começar a traçar argumentos usando a pura lógica, e baseado nessa idéia imaginei como seria a raiz lógica de um problema vigente: o desrespeito.
A primeira premissa que eu defendo é que é impossível uma pessoa atingir diretamente o seu self, assim como é impossível uma pessoa sobrepor uma crença sua sem seu consentimento. Existe uma área inatingível em nossa consciência, essa parte não chega nenhum desrespeito, ofensa ou mágoa a não ser que permitamos.
O sentimento ruim que temos perante uma cortada atinge o ego, e o ego define se aquilo se torna ou não uma falta de respeito, de acordo com o nível de prepotência que o ego tem sobre o ofensor.

Ainda que o ofensor queira te magoar deliberadamente, você sempre terá a escolha de aceitar ou não a ofensa. Claro que essa “escolha” acontece muito rapidamente no nível do inconsciente, apenas uma mente muito bem condicionada poderia se desviar diretamente dessa questão e ignorar a ação que o ego move para transformar qualquer ataque a si em um crime.
Portanto, antes de exigirmos respeito dos outros, devemos lembrar do que Schoppenhauer disse “Não são as coisas que nos perturbam, e sim a nossa interpretação das coisas.” Portanto cuidado com as interpretações.


posted by TRUNKAEL H MAIRS 9:54 AM

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Quinta-feira, Junho 04, 2009


De um extremo ao outro para chegar ao caminho do meio

Ok, mas quem disse então que ter boa relações com as pessoas é algo essencial? Afinal posso ser um eremita e meditar sozinho pelo resto da vida.

O Duanne propôs essa questão depois de ler o post anterior e, apesar de eu discordar, ela me pareceu muito familiar, pois era justamente o tipo de argumento que eu sustentaria há um ano. Para contra argumentá-lo eu poderia usar simplesmente o filme “O Buda” e lembrar que meditar não é o suficiente se você não trás as “pedras preciosas”. Apesar do budista ser muito dedicado a meditação o mestre sempre lhe falava sobre as “pedras preciosas” que ele não tinha. Ele se referia as relações interpessoais que deveriam ser lapidadas antes de focar exclusivamente um caminho espiritual. Você deve aprender mais sobre você mesmo com o outro, antes de mergulhar em si. Se até o budismo dá tanta importância as relações interpessoais então com certeza prestarei atenção nela.

A outra parte do argumento poderia se referir psicologia interpessoal, que a pouco tempo comecei a me aprofundar. Sabia mais ou menos do que era, mas não tinha uma idéia de como seria um tratamento com essa abordagem. Irvin Yalom faz um bom resumo no começo de seu livro “Desafios da Terapia” dizendo que a maior parte dos problemas das pessoas são interpessoais e essa abordagem ajuda o paciente a lidar melhor com as pessoas, a ter relacionamentos mais produtivos.
A empatia seria o primeiro passo essencial para construção de um bom relacionamento com qualquer pessoa. Para quem acha muito subjetivo esse negócio de empatia tem um exercício simples que pode dar uma forma mais concreta a essa virtude. Em uma conversa que se torna discussão você pode tomar a iniciativa de se colocar no lugar da pessoa, e demonstrar a ela aquilo que você entendeu do que ela disse. Ela vai confirmar ou concertar alguma coisa da interpretação, daí você realmente terá entendido o ponto de vista. No seu contra-argumento explique qual parte você não concorda e peça para que a pessoa diga o que entendeu. Assim a discussão não se torna uma briga inútil e a conversa e o relacionamento prosperam.

Perceba que apenas o exercício da empatia já abranda a prepotência e arrogância comentadas no post anterior. Quando você efetivamente escuta a pessoa e tenta entende-la você tem uma conexão tão boa com ela que não há espaço pra apatia ou qualquer um desses defeitos/escudos.
Para pessoas que tem ego demasiadamente forte será um exercício muito difícil de ser aplicado, pois eu sei muito bem que é um saco ter que ouvir uma pessoa bater na tecla de algo completamente irracional (eu sou assim, não tenho nenhuma paciência com que foge da lógica), mas não é impossível. Primeiro lembre-se que realmente existem pessoas que não se apóiam na lógica, seja num relacionamento, seja numa discussão. Muitas pessoas (na sua maioria, mulheres) são controladas pela emoção, e para elas um fato concreto não quer dizer absolutamente nada.

Mas ai que entra a parte incomoda. Pois é onde seu EGO tem que ceder, pois no final das contas você NÃO PRECISA convencer ninguém de nada. Isso faz parte de seu egocentrismo. Então se uma pessoa quer esquecer a lógica e usar só a emoção seja empático, se coloque no lugar dela e explique pra ela o que você entendeu disso. Há coisas que é melhor não discutir mesmo.
Se você tem na cabeça que quer deixar o egocentrismo, prepotência, arrogância e apatia de lado esse seria o primeiro passo: escute os outros e não se imponha. Se isso começar a dar certo, as outras virtudes sociais virão naturalmente. O mais importante é não sair do caminho e não cair na apatia.

Para mais informações sugiro livros de psicologia interpessoal. Tenho lido os livros do Irvin Yalom, que usa a abordagem interpessoal e a existencial, o que está efetivamente mudando minha forma de relacionar com as pessoas. Espero que eu consiga ainda esse ano acabar com esses meus defeitos e seguir um caminho boas virtudes sócias.


posted by TRUNKAEL H MAIRS 1:13 AM

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Domingo, Maio 24, 2009


Sobre como se defender da influência do meio

"cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o edifício inteiro." (Clarisse Lispector)


Uma época especial em minha vida foi o segundo grau. Foi meu primeiro contato com a psicologia e a filosofia, também meu primeiro contato com a internet. Durante meu segundo grau tive um crescimento intelectual extremamente interessante, foi a época em que decidi parar de assistir televisão, questionar as regras e efetivamente sair da alienação proposta pelo meio.
Talvez a energia de ativação primária foi assistir “Clube da Luta” durante uma das aulas de psicologia. A visão de que a sociedade capitalista minava minhas vontades reais, meu poder criativo e, efetivamente, meu próprio brilho individual se proliferou rapidamente em minha mente. Foi o começo da ruptura.
Mesmo sendo um entendimento rudimentar eu sabia que não deveria aceitar tudo que a sociedade me impunha sem antes questionar. Rapidamente o questionar se tornou uma resistência e luta pela formação de minha própria identidade, independente do que o meio poderia me oferecer de imediato.

O efeito colateral de tomar as rédeas de minha própria vida veio quase que imediato, a arrogância e prepotência surgiram como mecanismo de defesa para tudo que fosse externo a mim. Rapidamente comecei a rotular as pessoas de alienados, e num texto que em que eu destilava todo meu veneno nietzscheano (embora eu ainda nem conhecesse Nietzsche) eu chamei as pessoas comuns de “Pobres Mortais”.
Ficou claro que eu achava que estava acima do resto do mundo, isso se refletia na minha antipatia por qualquer assunto mundano, eu queria fugir daquela adolescência imbecil que me cercava. Apesar da minha arrogância ser visivelmente reprovada pelos outros eu continuava, principalmente quando descobri que não estava só, encontrei adeptos que me deram força para continuar nesse caminho de resistência.

O momento de lucidez veio durante uma viagem. Tendo conseguido contaminar os dez estudantes com minhas teorias percebi ainda mais a força de minhas palavras e meu poder de liderança. Mas também foi nessa viagem, especificamente no final dela, que percebi que tinha alguma coisa errada nisso tudo. Quando eu vi todos os outros chamando o resto do mundo de “Pobres Mortais” percebi o perigo de achar que o único caminho de resistência era pisando na cabeça dos demais.
Depois disso tomei um caminho mais silencioso e entrei numa extensa busca intelectual, para finalmente me dar conta que os defeitos que eu tinha criado para me defender (arrogância e prepotência) não só me tornaria desagradável com todos, mas criaria um bloqueio intelectual que me impediria de efetivamente evoluir.

Quando resolvi cortar os defeitos, efetivamente o prédio desabou.

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Não posso colocar minha história como regra absoluta, mas acredito bastante nas minhas próprias experiências de vida quando se trata da validação de uma teoria. Tempos depois pude observar que outras pessoas que conseguiram se desvencilhar das amarras sociais também desenvolveram esses defeitos mencionados, ou pelo menos um tipo de apatia social.
A primeira forma de defesa contra o meio requer um escudo apropriado e a apatia social, assim como a arrogância funcionam muito bem para criar e fazer a manutenção de nosso campo defensivo contra o sistema opressivo a nossa volta. Depois da consciência desse problema percebi que existem pelo menos três caminhos que as pessoas trilharam para se desvincular de tais defeitos.

O primeiro, e possivelmente o mais usado, é simplesmente desistir de fazer resistência e voltar para os braços acolhedores do sistema. Mas parece que essa não seja uma resolução real do problema, pois até então não encontrei ninguém que permanecesse feliz depois de ter voltado a ser alienado pelo meio.
O segundo, que é muito comum nos círculos intelectuais, é que essas pessoas ou não percebem, ou não querem considerar a existência desses defeitos (escudos) sociais. Elas simplesmente mantém sua prepotência, apatia ou arrogância e convivem com elas como se não existissem.
O terceiro e mais doloroso caminho é lutar para se desfazer desses defeitos sociais e manter a resistência usando outros escudos. Essa é uma fase que pode nunca ser concretizada pois é uma luta diária, você deve se monitorar o tempo todo para entender como suas ações são vista pelas pessoas que convivem com você e como você pode melhorar suas relações.

Observando superficialmente parece com a primeira opção, mas nesse caso o trabalho consiste não só na destruição desses defeitos, mas também na construção de virtudes que possam criar uma ponte suspensa até as pessoas que você gosta. Claro que o exercício de uma virtude como a empatia, por exemplo, é algo demorado e demanda muita disciplina. Desenvolver essas virtudes necessárias para manter uma vida social compensadora, apesar de não estar mais sob o manto opressor do sistema, será um trabalho para toda a vida.


Continua..


posted by TRUNKAEL H MAIRS 2:55 AM

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Terça-feira, Abril 21, 2009


Da opressão do meio

O ser é parte integrante do meio, e o meio acaba abduzindo o ser, transformando-o em parte de si, despersonalizando-o, para que ele não tenha chances de modificar o meio que vive. Sem a sociedade o ser não sobrevive, sem o ser a sociedade não existe. A evolução da sociedade só é possível a partir da evolução individual do ser.

A vida vegetativa abraçada por grande parte das pessoas não é especificamente uma escolha, é o único modo possível até que se atinja uma maturidade intelectual que nos mostre um novo modo de vida. A partir daí existe a escolha, você pode fazer parte ou não do sistema.

O problema da visualização dessa “escolha” é que independente do que escolhemos nos depararemos com o arrependimento. Uma dos maiores fatores para a infelicidade é a grande quantidade de escolha que temos que fazer todos os dias. Quando optamos por uma coisa, acabamos por descartar todas as outras.

A cada tipo de experiência de vida estaremos inevitavelmente experimentando a insatisfação. Quando isso se torna suficientemente sufocante procuramos ajuda na psicologia, filosofia ou religião. Embora qualquer uma delas possa solucionar temporariamente essa angustia, apenas uma prática real do desapego é que poderíamos viver sem a pressão das escolhas.
Apesar do budismo ter, em minha opinião, a melhor prática para o desapego, em um nível pratico, o estado zen quase se confundiria com a depressão. Isso porque a ação pelo não-ação, o não-querer, não-desejar, não são incompatíveis com o sistema social em que vivemos.

Esse sistema transforma o zen em depressão, ou capitaliza o zen, colocando-o numa redoma. A única linha de fuga possível seria sair completamente do sistema, ou se manter nos micros sistemas (propostos no post abaixo) onde não exista toda uma pressão social em prol do conservadorismo atual.

Ou seja, para existir uma mudança real no ser, este tem que mudar de meio, ou criar uma mudança no meio, fazendo com que tudo a sua volta se adapte a você. Embora isso pareça absurdo inicialmente, é algo que acontece o tempo todo. A mutação social começa justamente com essas pessoas que consciente ou inconscientemente moldam o mundo a seu redor.

Caso a pessoa não tenha suficiente força de vontade para mudar de meio, ou modificar o próprio meio, o que resta é a adaptação, onde efetivamente o meio subjulga o ser (como proposto por Lacan ou Adorno) despersonalizando-o ao máximo, até que não exista mais o território do eu (ou o campo A.T.). O ser simplesmente é mais uma peça da engrenagem do meio/sistema.

Abaixo um texto antigo que fiz sobre a Mímese

Espelhos sem imagens: mimesis e reconhecimento em Lacan e Adorno

Introdução

A história da relação entre a filosofia e a psicanálise teve um começo distinto e desvinculado na França, por Lacan e na Alemanha, pela escola de Frankfurt através de Adorno. Não há provas de que houve uma relação entre estes dois pólos, embora tenham estudado o mesmo assunto.

Permanecer diante do sujeito ... através do objeto

As experiências intelectuais tanto de Lacan quanto Adorno foram através de um projeto de retorno a Freud. Em Adorno, a teoria Freudiana foi decisiva na criação do conceito de auto-crítica da razão.

Tanto Lacan quanto Adorno tentaram renovar o os modos se sustentação do princípio de subjetividade a partir de uma estratégia absolutamente convergente. Em vez de assumirem o discurso da morte do sujeito ou do retorno à imanência do ser, ao arcaico, ao inefável, todos os dois estiveram dispostos a sustentar o princípio de subjetividade, embora desprovendo-o de um pensamento da identidade.

Nas mãos dos dois, o sujeito deixa de ser uma entidade substancial que fundamenta os processos de auto-determinação para transformar-se no lócus da não identidade e da clivagem. Assim a não-identidade poderá construir um horizonte utópico da mesma maneira com que ela representará aquilo que deve ser reconhecido pelo sujeito. No caso do sujeito essa não-identidade encontra seu espaço privilegiado de manifestação através da experiência do corpo, do impulso e de seus modos de subjetivação.

Esse regime de identificação não poderia ser compreendido a partir do mecanismo de uma projeção do eu sobre o mundo dos objetos, nem pela absorção do objeto através de uma rememoração, ao contrário, trata de levar o sujeito a se reconhecer no interior de si mesmo. Todo sujeito porta em si mesmo um núcleo do objeto. A subjetividade deve ser reconhecida em uma recuperação de confrontações próprias à dialética entre sujeito e objeto. Uma estrutura de reconhecimento de dimensões da subjetividade que não se esgotam na auto-objetivação do sujeito no campo subjetivo da linguagem. A este reconhecimento adorno deu o nome de mimesis.

Devemos compreender as tentativas adornianas de fornecer um modelo de comunicação não mais entre sujeitos, mas na confrontação entre sujeito e objeto.

Clínica e Reconhecimento

Em Lacan, a temática do reconhecimento estaria vinculada a intersubjetividade do desejo. Mas a partir do momento em que a psicanálise tenta se afastar da reflexividade própria do sujeito ela perde o critério para estabelecer a verdade do que se apresenta no campo da experiência. A não ser que voltemos a uma noção não-problematizada que não precisa do Outro para se legitimar. Assim, a cura na clínica lacaiana é indissociável de um movimento de subjetivação.

A auto-objetivação do sujeito, segundo Lacan, não estaria vinculada à posição de dimensões expressivas das aptidões de indivíduos socializados. Ela estaria vinculada ao reconhecimento do sujeito em um objeto que não porta sua imagem, que não porta as marcas de sua individualização.

Críticas da Intersubjetividade

A convergência entre mecanismos de socialização e processos de alienação é patrocinada por uma crítica totalizante da reificação da linguagem ordinária. O que impossibilita a auto-objetivação do sujeito no interior da realidade alienada das sociedades modernas. A objetivação construída pela ciência permitirá que o sujeito esqueça sua subjetividade.

A expressão no interior do campo intersubjetivo está necessariamente submetida a processos de reificação e de objetivação. A auto-objetivação do sujeito só pode se dar como alguma forma de negação de determinações intersubjetivas, negação dialética que, por sua vez, não seja retorno ao inefável ou ao arcaico.

Mimesis, natureza e estranhamento

O problema da mimesis em Adorno é interpretado como a recuperação de uma afinidade não-conceitual que escaparia à concepção de uma relação entre sujeito e objeto determinada a partir do modo cognitivo-instrumental que prometeria um modo possível de reconciliação entre o sujeito e a natureza. Nas palavras de Habermas “um retorno às origens, através do qual tenta-se retornar aquém da ruptura entre a cultura e a natureza.

A natureza apareceria como um signo de autenticidade, o que vai contra toda possibilidade de pensamento dialético da natureza no qual esta não é posta nem como horizonte de doação positiva de sentido, nem como simples construção discursiva reificada. A natureza é uma figura negativa, pois é exatamente aquilo que impede a indexação integral dos existentes pelo conceito.

Os eixos da problemática adorniana do mimetismo seriam: a teoria antropológica da magia, teoria psicanalítica das pulsões, mimetismo animal, e o problema estético da representação.

A atividade antidialética tende a reduzir ao ser do eu toda atividade subjetiva. Através da identificação com o outro se revela o que é da ordem das individualizações modernas. A referência-a-si só se constitui através da mediação pelo que é posto como marca de alteridade.

A identidade do eu seria dependente da entificação de um sistema fixo de identidades e diferenças categoriais. A projeção de tal sistema sobre o mundo é exatamente aquilo que é chamado de falsa projeção.

A pulsão de morte seria uma reconciliação do sujeito com a natureza. O que nos leva a ruptura do eu como formação sintética. De acordo com Deleuze, a morte procurada pela pulsão é o estado de diferenças livres quando elas não são mais submetidas à forma que lhe era dava por um Eu; quando elas excluem minha própria coerência assim como de outra identidade qualquer. Há sempre um morre-se mais profundo do que um ‘morro’.

A tendência a perder-se no meio ambiente pode ser interpretado em Roger Caillois da seguinte forma: O espaço parece ser uma potência devoradora para estes espíritos despossuidos. O espaço os persegue, os apreende, os digere em uma fagocitose gigante. Ao fim, ele os substitui. O corpo então se dessolidariza do pensamento, o indivíduo atravessa a fronteira da sua pele e habita do outro lado de seus sentidos.

Adorno livrou o conceito de mimetismo da sua subordinação à natureza como plano iminente e positivo de doação de sentido. O sujeito deve-se reconhecer para afirmar sua não-identidade. Ou seja, reconciliação com o objeto e destruição do eu como auto-identidade estática no interior de um universo simbólico estruturado.

O objeto é aquilo que marca o ponto no qual o eu não reconhece mais sua imagem, ponto no qual o sujeito se vê diante de um sensível que é a materialidade sem imagem, cuja confrontação implica um perpétuo decentramento.

O reconhecimento dos homens como sujeitos é dependente da capacidade de se identificarem com o que não submete mais aos contornos auto-idênticos de um eu com seus protocolos de individualização.

Especularidade e Opacidade

Em Lacan não encontraremos nada visível sobre o conceito de natureza, no entanto se levarmos em conta o caráter negativo da natureza proposto por Adorno (a natureza como aquilo que resiste à reflexão do conceito) a partir da teoria das pulsões, teremos um caminho [paralelo] a trilhas no texto lacaniano.

À primeira vista parece que Lacan não separa a falsa projeção narcisista da mimeses, como propõe Adorno, visto que o que Lacan chama de seu ‘estágio do espelho’ é como se o bebê projetasse seu eu em outro bebê, desvinculando suas zonas de interação com a mãe para ter uma imagem do próprio corpo.

Através da temática do desejo como pura negatividade, como falta-a-ser primordial, Lacan colocaria o reconhecimento na pura negatividade como a cura das ilusões de narcisismo e de alienação. E Lacan reconhecerá que o verdadeiro potencial da não-identidade não virá de uma transcendência negativa do desejo, será causado pelos objetos parciais que o sujeito tende a perder durante o fenômeno da socialização e formação do próprio corpo.


posted by TRUNKAEL H MAIRS 7:21 PM

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Quarta-feira, Abril 08, 2009


Dos Sentimentos Inconceituáveis

Para sentir que não está perdendo tempo entre devaneios, uma pessoa insone usa a noite para ler ou escrever. É verdade que eu não tenho feito nenhuma das duas coisas ultimamente, perco meu tempo apenas navegando e divagando na internet sem fim. Normalmente nem lembro o que fiz na noite anterior, e isso acaba criando um sentimento ainda maior de inutilidade da existência.

Agora que consegui me esquivar de certos vícios novamente volto a leitura e escrita, há novamente uma busca.

Não importa a busca do que, mas o ato de buscar. Minha antiga angustia era buscar um motivo para viver, até descobrir que a vida é o próprio motivo. A vida trás possibilidades infinitas, nós podemos mudá-la o tempo todo, embora na maioria das vezes parecer algo impossível.

A diferença da teoria para prática se resume em um de dois defeitos que tem o poder de manter o ser humano na inércia: O medo e a preguiça. Quando junta os dois é impossível até cogitar a idéia de mudança.

Há algum tempo eu perdi o medo da vida, o defeito que me sobrou é a preguiça, a acomodação. Por isso hoje estou preso em meu próprio cárcere. Um mundo administrável e conservador como o de qualquer outra pessoa que ignoro diariamente.

Mas as vezes consigo mandar uma mensagem através dessas grades. Seria muito mais coerente se eu mandasse essa carta para uma pessoa próxima, alguém que me conheça, pois assim seria melhor entendido. No entanto já tenho correspondência regular com amigos reais e imaginários, mas a discussão se torna rasa pela falta de novos pontos de vista. Até então não consegui uma discussão que abrangesse todos os pontos que acho ser possível. Por isso preciso de novos argumentos, novas perguntas. Assim talvez eu possa ter uma parâmetro mais interessante sobre o motivo da vida, o começo do universo e tudo mais. Qualquer resposta é mais completa que o número 42.

Melhor que novas resposta são as novas perguntas. Talvez a busca seja por essas novas questões e não por respostas. Qualquer filósofo sabe que a evolução de toda a humanidade começou com uma pergunta, e só se manterá se ainda existir perguntas.

Mas voltemos à idéia principal, que é sobre sentimentos inconceituáveis. Talvez eu goste da idéia de discutir isso pois para mim nenhum sentimento seja exatamente conceituado. Há diversas formas e fases da paixão, assim como diversas formas de melancolia. É “apenas” um sentimento e se esse fosse realmente resumido em um palavra, deveria existir uma palavra para cada pessoa existente.

Ainda que tais palavras não definam exatamente o que esteja sentindo, é uma aproximação aceitável. Não há motivo aparente para criar novos símbolos, basta citar exemplos, uma pessoa empática consegue entende-lo de certa forma, mesmo não estando na posição mais privilegiada, que é a sua própria.

E não é só na questão de dar uma palavra ao sentimento que nos limitamos. Todos os dias passamos por isso de maneira ainda mais subjetiva, confundimos felicidade com festa, tristeza com solidão. Parece óbvio que a resposta para o tédio é ir para o bar. Mas não passa de uma compensação por um tipo de sentimento inconceituável.

Quando hoje sinto a solidão implacável impregnando minha alma, minha primeira ação é sair com meus amigos. Mas sei que é apenas uma resposta fácil. Aquela noite agradável entre bebidas e outras drogas é apenas mais uma compensação.

Mas solidão é uma palavra muito abrangente, devo explicar melhor esse sentimento, do contrário você pegaria sua própria idéia de solidão para preencher essa lacuna interpretativa. A solidão que digo é perante toda a humanidade, se sentir sozinho entre muitos, buscar um tipo de entendimento impossível entre seus iguais. Essa solidão é como saber que apenas você sabe exatamente o que está sentindo.

Depois de tantas questões existências nada nem ninguém poderá suprir essa necessidade de completude. Não há completude, existe apenas um tipo torto de complementação.

Se isso for uma conclusão plausível acabei de entrar em um beco sem saída, pois nesse caso o objetivo da busca da completude sempre acabará em um tipo de compensação. Afinal, não existe mais possibilidade de entendimento verdadeiro, apenas uma aproximação do entendimento.

Parece uma pegadinha de mais de dois mil anos de idade, quando um filósofo disse que numa corrida é impossível chegar ao destino final, pois teríamos que ir até o meio da caminhada, depois ao próximo meio, e assim indefinidamente.


posted by TRUNKAEL H MAIRS 1:30 PM

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