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Quinta-feira, Março 31, 2005
Mensageiros
Antigamente o ICQ era o programa de mensagem mais usado, o MSN nem era conhecido direito, e em muitas coisas o ICQ continua melhor que o MSN, como poder trocar o nome de seu amigo na lista, poder fazer busca de pessoas no próprio programa, poder ficar invisivel e coisas do tipo. O fato é que o MSN tomou o espaço do ICQ, e ninguém mais pergunta seu id, e sim seu msn. Nesse ano eu estou prevendo uma nova revolução. Percebam que o Yahoo é o melhor e-mail da web no momento, ele tem 250mb (enquando o hotmail tem 2!) e milhares de serviços gratuitos, os grupos de discussão são do yahoo, ele dá até acesso grátis. A tendência é que todo mundo comece a baixar o Yahoo Messenger, que em sua versão em inglês (yahoo.com) tem até a rádio Yahoo (totalmente personalizavel) acoplada. Convido vocês para se juntarem a nova tendência, e vamos todos usar o Yahoo pois justamente pelo MSN ser tão usado a escola o bloqueou (também), e já não posso me comunicar com quem estava na minha lista. ^^
posted by TRUNKAEL H MAIRS
6:02 PM
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Terça-feira, Março 29, 2005
O conto do filho pródigo
Depois de bastantes brigas e discussões ele resolveu fugir. Basicamente seria uma história comum dessas em que se começam livros populares ou contos vazios, e talvez essa seja uma delas, mas continuemos. Ele fugiu de casa, não agüentava mais os pais, os amigos, a namorada e, principalmente, seus avós. Por quê seus avós? A resposta é bastante simples na cabeça dele, eles o obrigaram desde pequeno a freqüentar a igreja, uma igreja protestante qualquer (não que o fato de ser protestante contasse pontos, poderia ter sido qualquer igreja ou mesquita, ele só não queria ser obrigado a ir a um templo que foi feito para louvar algo que ele não acreditava). E esse foi o ápice, depois de mais uma discussão religiosa seus pais disseram que ele poderia deixar de ir à igreja assim que fosse totalmente independente. Era o ponto final, ele tinha 15 anos e ainda faltava muito para que ele pudesse viver longe dos pais, mas ao contrário da maioria ele não esperou.
Então fugiu, primeiro ficou alguns dias na casa de um amigo, nem a mãe desse Amigo sabia que ele dormia por lá, deixou de ir à escola e passava o dia em uma floresta nos arredores da cidade, e apesar de comer algumas frutas não teria agüentado viver daquele jeito sem ser alimentado todas as noites por seu Amigo. Ficou por lá uma semana e era o máximo que ele poderia ficar em um lugar, ele mesmo estipulou esse tempo. O plano era mudar de cidade e arrumar um emprego qualquer, mas não estava conseguindo dinheiro para essa viagem, tentou várias possibilidades de emprego, até que um outro amigo conseguiu que ele ajudasse a concertar bicicletas na periferia do outro lado da cidade. No começo dormia na loja, ficou por um més, e quando já estava ajeitando-se para seguir viagem seu pai o achou. Entrou pela lojinha pegou-o pelo braço e sem se importar com os clientes ou com o dono, levou-o a força para fora e bradou:
- Você sempre foi a vergonha de nossa família. Eu cobrava muito pouco de você. Esperava apenas que você Me obedecesse. Esperava que você Me amasse como Eu lhe amo, pedi pouca coisa e mesmo assim, mesmo tendo a vida que muitos gostariam de ter, você Me causa tamanha vergonha! - Ele parou um tempo para respirar, olhou em volta e percebeu que bastante gente tinha se aproximado para escutar, Seu semblante de fúria aos poucos se desfazia, e mais baixo e devagar continuou - Vou lhe contar uma história, a história de um filho que também fugiu mas que não apenas foi perdoado como foi recebido com festa. Filho Eu amo você e te perdôo pela vergonha que você me fez passar, eu te perdôo por que é isso o que qualquer cristão deveria fazer. Voltemos para casa agora e deixemos os curiosos de lado. Pois você será recebido com grande festa, já estás perdoado.
Um silêncio muito pesado se manteve por alguns segundos, ele se soltou das mãos do Pai e se afastou alguns passos, estava de cabeça baixa e olhando nos olhos Dele, não tinha raiva no coração, dessa vez tinha pena. Levantou a cabeça, e bradou com voz adulta que o Pai ainda não tinha escutado:
- Pois leve seu perdão consigo que eu não o aceito.
As pessoas começaram a sussurar horrorizadas, o senso-comum havia ensinado que todo perdão deveria ser aceito. O Pai estava assustado, Ele se arrependeu por um momento por não ter citado o inferno, o inferno era sempre um bom argumento. E quando ele abriu a boca para falar novamente seu filho continuou:
- E não adianta me ameaçar com o inferno, pois as ilusões caíram, eu vou continuar a minha vida sozinho, sem tentar preencher a Sua expectativa ou de qualquer outra pessoa. As Suas amarras já não são tão fortes como antigamente.
E então ele se virou e seguiu seu caminho. O Pai não foi atrás dele, pois de todos que estavam ali, Ele era o único que sabia que o filho estava certo.
em homenagem a Mr Sudo ; )
posted by TRUNKAEL H MAIRS
6:00 PM
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Domingo, Março 27, 2005
Operação Ovo de Páscoa
Antes de representar a libertação ao povo judeu, e mais tarde ser transformada no símbolo da ressurreição de Jesus Cristo, a páscoa era uma festa pagã, onde a humanidade celebrava o fenômeno da vida na passagem do inverno para a primavera.
Assim como o cristianismo adaptou o significado de uma festa que nasceu muitos séculos antes do próprio Cristo, o consumismo tem criado um outro símbolo. A páscoa hoje é sinônimo de ovos de chocolate, e cada um de seus significados anteriores estão sendo esquecidos ano a pós ano.
Mas ainda há pessoas que celebram a páscoa como símbolo da vida, ainda há pessoas que se lembram de Jesus. Claro que não vim aqui para pregar o cristianismo, mas mesmo eu não sendo cristão, penso que a páscoa deve significar mais do que ovos de chocolate, a páscoa representa a vida, e a vida é produto do amor, e por isso não posso deixar Jesus de lado, pois ele, ainda que fosse apenas um personagem, é o maior sinônimo de amor de todos os tempos.
Pena que foi lembrado em cada cidade do país no seu momento de maior sofrimento, como se ao cristão fosse necessário ver seu messias sofrendo, para acreditar em sua mensagem. Que Jesus seja lembrado em sua frase mais importante "ame o próximo como a ti mesmo".
Não devemos devoção à Jesus por ele ter morrido por nós, mas por ter ensinado a humanidade a amar. Claro que ninguém é obrigado a seguir os preceitos cristãos dessa festa, mas se a Páscoa deve ter um significado, que esse seja o amor que cada um deveria ter à sua própria existência.
editado 28/03 às 11h20
posted by TRUNKAEL H MAIRS
6:58 PM
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Quarta-feira, Março 16, 2005
Bodega (por Ana Clara Silva*)
Senhores sustentados pelo taco de sinuca se iludem diante do vício de apostas incessantes. Mulheres vadias roçam felinamente no colo dos homens que balbuciam palavras vulgares. Bêbados conversam ao mesmo tempo, cospem palavras que pulam indecifráveis de suas bocas flácidas juntamente com a fumaça do cigarro mal tragada.
Na escada sem luz uma senhora tenta acertar, ansiosa, as veias fechadas que lhe restam pelo corpo, com a ponta enferrujada da seringa cheia de alguma droga qualquer. Na parede do canto, dois velhos se atracam num sexo frouxo, sem lógica e sem ginga, embalados por um bolero chifrim vindo de uma caixa de som que só faz zunir.
Alguma horas depois, os senhores vão embora por não terem mais dinheiro para gastar em apostas. As mulheres vadias apanham dos maridos em suas casas. A senhora drogada aprecia cada instante da sua overdose. Os velhos dormem abraçados para comemorar os instantes de prazer que nunca terminam em gozo. A puta toma um banho e passa o seu perfume para descansar e trabalhar na noite seguinte.
Ana Clara cursa jornalismo aqui no Unileste comigo
posted by TRUNKAEL H MAIRS
8:47 PM
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Quarta-feira, Março 09, 2005
Como Alex e Emma
Uma coisa interessante que percebi enquanto escrevia o conto "Como qualquer outra pessoa" é que se deixarmos livres, os personagens podem criar a história por si próprios até que não tenhamos mais controle sobre eles, em verdade eu queria escrever esse conto ai abaixo, mas saiu outro, e se eu não permanecesse no controle com esse, acho que ele também se transformaria em outro, e talvez acabasse por nunca ser escrito.
Lembro-me então do filme Alex e Emma, que por trás do romance dos dois discute-se sobre os personagens tendo vida própria, e ai chego também a parte em que se descobre ser aquela, a história do próprio autor. Não creio que essa segunda parte se encaixe no meu caso, mas também não está de toda errada, pois só escrevemos sobre aquilo que um dia experimentamos, ou que ao menos tenhamos repertório o bastante para criar.
E ai me perco nesse texto que nem é literário esquecendo o que eu queria dizer com isso tudo e dou um até mais para vocês.
posted by TRUNKAEL H MAIRS
5:08 PM
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Coisas bobas da vida
Eu vejo uma moça muito bem arrumada entrando no ônibus. Um intermunicipal que ia de uma cidade grande a uma cidade do interior. Dentro dele haviam pessoas. (E não pense que é obvio haver pessoas dentro do ônibus, talvez era fretado por alienígenas, não sabem, aqui tudo é possível.) E uma dessas pessoas, que é homem, é chamado de Antônio.
E Antônio também viu a moça entrar no ônibus, ora, ele estava lá dentro, e como nunca havia viajado para tal cidade ficava atento a tudo. A moça andou por todo o corredor, olhou para o numero sobre a cabeça de Antônio e pediu:
- Posso?
Antônio, pensou por um instante: "creio que eu esteja em um daqueles momentos impossíveis de acontecer, uma moça bonita nunca senta do meu lado no ônibus ou em qualquer lugar que seja, sempre é uma feia ou um homem barbudo e fedorento, no máximo uma coroa simpática" e então, todo racional, tentou formular uma teoria sobre isso, um tipo de proporção, mas lembrou da moça, se desculpou e levantou para que ela se sentasse à janela.
- Obrigado - ela disse. Antônio apenas sorriu. E por mais incrível que pareça, ela retribui o sorriso. "Pessoas da metrópole não são tão rudes como diziam", pensou. Sentou-se novamente e, inocente como ele só, acho que a moça lhe dera bola, arriscou:
- Qual é seu nome? - perguntou com empolgação na voz, mas ainda sim poderia parecer simples demonstração de simpatia. A moça, que ainda se ajeitava na poltrona, virou o rosto para seu lado:
- Rebeca e o seu? - e se pôs a procurar seja-lá-o-que-for dentro da bolsa.
- Antônio... Antônio Jordão, prazer - e estendeu-lhe a mão. A moça meio que ficou sem saber o que fazer, fechou a bolsa de qualquer jeito e estendeu a mão, e deu um rizinho por ter se atrapalhado. Antônio se encheu de coragem e beijou a mão da moça, numa cena que de um ângulo poderia parecer romântica, mas do ângulo em que estou pareceu bastante engraçada. Rebeca deu um sorriso, que por pouco não se transformou em uma gargalhada de deboche. Puxou a mão novamente e continuou a mexer na bolsa, parecia que algo não queria sair dali de dentro.
- Você também está indo para São Tomé das Letras? - a ela pareceu uma pergunta idiota, mas ele nem pensou nisso, afinal o ônibus passava por vários outros vilarejos antes de chegar em São Tomé.
- Sim, sim - falou sem olhar para ele - finalmente! - tirou um livro de dentro da bolsa, que estava até meio amassado pois garrara lá dentro. O coração (ou foi o ego?) do nosso amigo Antônio murchou rapidamente, e ele se afundou na poltrona. - O que você dizia mesmo? - ela ainda perguntou.
- Nada, nada, não quero te atazanar a vida. - falou tão calmamente que ate parecia que foi sincero, a moça se vangloriou por dentro.
- Obrigada - e sorriu, abriu o livro e se pôs a ler sem nenhum remorso. Mas Antônio, estava explodindo por dentro. Ela olhou para ele novamente, deu um sorriso - realmente não tinha nada a dizer? - e ele se virou para ela, com um sorriso maníaco no rosto e respondeu:
- Em verdade gostaria de dizer algo sim, gostaria de falar sobre os motivos das mortes no mundo, que todos só morrem por ainda estarem vivos, e que a maioria já está morto e nem sabe; e que as aparências não enganam tanto quanto dizem, você pode simplesmente achar que a pessoa é o pior que uma pessoa pode ser, e um dia, eu disse, um dia, você vai descobrir que era exatamente do jeito que você pensou que fosse, e no final você não saberá se sempre fora assim ou se você que a envenenou por toda a vida para comprovar uma ridícula teoria; continuaria para falar sobre a hipocrisia de cada livro de auto-ajuda que existe na face da terra, autores aconselhando coisas que eles mesmo nunca conseguem seguir; e ainda sobre os psicólogos com síndrome do pânico e sobre como a televisão causou cada suicídio que já existiu por inserir na mente desses pobres mortais sonhos impossíveis ao mesmo tempo em que sugam toda a sua força de vontade; digo ainda que o mal de toda a sociedade é a comodidade, que causada por medo, que causado por pré-conceitos morais, que inseridos na mente de cada um por seus próprios pais, que também não tem culpa por serem apenas parte de um círculo vicioso que perdura desde milhares de anos atrás, e ainda sim poderia apenas falar, pois eu também estou contaminado até o pescoço por essa maldita sociedade que tem um ego coletivo maior que a própria ignorância; e diria também que atrás de um rostinho bonito pode sim residir uma pessoa muito interessante e com bastante amor no coração, o que não parece ser o SEU caso. - A ultima frase falou gritando, e se sentou novamente, fechou os olhos e permaneceu com um sorriso no rosto. Rebeca, não entendeu metade das palavras que escutara, mas achou aquilo tão lindo que pulou sobre ele dando-lhe um longo beijo, que, daqui, me parecia bem apaixonado.
posted by TRUNKAEL H MAIRS
4:52 PM
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Terça-feira, Março 08, 2005
Palavras
Ai abaixo encontrarás três posts sobre cinco livros e um conto. Por causa de uma aposta não vai ao ar dois outros textos que eu fiz, esses eu coloco més que vêm.
Além desses livros abaixo, eu li (finalmente) "Alice no país das maravilhas" do Lewis Carrol (sabia que isso é um pseudônimo?). O livro me surpreendeu, pois é uma história que já foi contada de tantas formas diferentes que o produto final já não parece com o original. Em verdade eu mal sabia qual era o próximo passo da Alice.
Bom, acho que é só, e meu tempo está acabando t+ ^^
posted by TRUNKAEL H MAIRS
10:32 AM
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Livro - A Caverna - José Saramago
Eu já havia lido "Ensaio sobre a cegueira" por isso não me assustei tanto com a densidade do texto de José Saramago, ele consegue fazer parágrafos durarem mais de seis páginas, e seus diálogos são separados por simples virgulas. Mas essa densidade é essencial para seu texto, que carrega tantas informações que só jogadas umas sobre as outras podem demonstrar com fidelidade o sentimento de cada personagem ou complexidade de cada ação.
A Caverna é uma grande parábola que vai se arrastando por todo o livro, tem um momento que levanta a cabeça (momento do sonho), mas se mostra totalmente apenas no fim. Em seus livros ele sempre quer dizer alguma coisa, e nesse ele fala sobre a alienação causada pelo mundo moderno. O aumento das próteses tecnológicas e a mudança que essas causam a cada pessoa do planeta, mesmo que seja um simples oleiro que mora em um vilarejo distante.
E em uma análise mais profunda poderíamos dizer que Cipriano relutava em sair de uma caverna para entrar em outra, assim o final pode ser tanto a saída, como a volta desesperada para a mesma, depende de que angulo você olha.
posted by TRUNKAEL H MAIRS
10:13 AM
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Como qualquer outra pessoa
Ele, que vamos chamar de Erico, esperava um ônibus. Não um ônibus como meio para chegar a algum lugar, mas como um fim em si. Queria o que tivesse maior itinerário para poder passear pela cidade. Era sábado e ele gostava de passear. As vezes ia de ônibus, as vezes de metrô ou a pé, nunca tinha um destino certo. Subiu num que tinha uma enorme lista de logradouros, sentou ao fundo, no lado contrário do trocador, e depois de observar as pessoas que estavam dentro do ônibus ficou a olhar a rua.
Não havia nenhuma pessoa interessante dentro do ônibus, e para Erico, pessoas interessantes são mulheres bonitas entre 17 e 27 anos.
Quando o ônibus parou no sinal e muitas pessoas atravessaram a rua, Erico pode ver 3 ou 4 pessoas interessantes, mas que passaram muito rapidamente sem nem olhar em sua direção. Não pode sequer segurar a imagem de nenhuma delas na mente, seus rostos desapareceram assim que o ônibus começou a andar novamente. Mas devo salientar que esses passeios de Erico não são exclusivamente para ver pessoas interessantes, o fato é que em qualquer lugar elas são o objeto de maior atenção.
Três pontos se passaram sem que ele visse nada interessante na rua, a não ser que o leitor pense ser interessante a piscadela que um sujeito muito bem arrumado enviou a nosso protagonista, coisa que ele prefere esquecer; e que mais a frente ele viu dois velhinhos, velhinhos mesmo, desses que só velhavam como diria Guimarães Rosa, e eles passeavam de mãos dadas como se o amor da juventude não tivesse desgastado nem um pouquinho durante muitas décadas, e logo Erico percebeu que não só velhavam, que amavam também, ou talvez as duas coisas fossem sinônimos. Enfim, ele não pensou nisso por muito tempo.
No terceiro ponto uma pessoa interessante entrou, e antes que nosso protagonista pudesse fazer uma leitura corporal da jovem moça ela olhou para o lugar vago ao lado dele, o que o fez perder todo controle da situação, não percebendo sequer o olhar que a moça desviou da poltrona para ele em seguida.
Intimidado ele não diria nada nem sequer olharia para ela, se pudesse nem respiraria. Observar as pessoas sempre fora muito mais cômodo, conversar era doloroso, você tinha que ficar tentando agradar o (na verdade "a") ouvinte o tempo todo, e sempre tinha a chance de dar um deslize, e perder totalmente a graça. Então ele resolveu não viver enquanto ela estivesse ali, o grande problema é que ela falou em sua direção:
- Boa tarde - (a sim, esqueci de dizer que era tarde, e isso era importante no começo pois eu disse que ele passeava no sábado e normalmente as pessoas passeiam de manhã, mas para nosso amigo a manhã não existia aos fins de semana, por isso ele sempre saia de tarde.) Ela disse como uma voz meio que sedutora, mas Erico perdera toda sua sensibilidade em ler pessoas desde que ela sentou ao seu lado. Ele se assustou, e por um segundo achou que não era com ele, mas virou o rosto e percebeu que a moça sorria, instintivamente sorriu também, e respondeu quase que naturalmente:
- Bom dia - e nem percebeu que errara, já era tarde. Continuou olhando para ela por alguns segundos, até perceber que não saberia como administrar aquela conversa, e quando ele voltaria a olhar a rua ela perguntou:
- Qual seu nome? - Pessimista do jeito que Erico era, não pensaria nunca que aquela tonalidade de voz era de um cortejo, mas agora já estava próximo demais para fugir, encararia então a árdua tarefa de conversar com a moça até que ela enjoasse de seu papo chato ou que chegasse o seu destino.
- Charles e o seu? - Já sei o que estão pensando, que ele mentiu sobre o nome, mas não é isso, eu é que menti, na verdade não menti, eu não sabia o nome dele e julguei que era Erico, claro que as possibilidades de acertar são mínimas, mas eu não poderia ficar referindo a ele como "ele" para sempre. Felizmente sabemos seu nome agora.
- Sabrina - ela disse meio que fazendo um biquinho quando pronunciava o "bri", para qualquer observador pareceria bem sensual, mas Charles mau percebeu - O que você faz da vida Charles? - agora sim ele se empolgara, ela disse seu nome, e isso lhe prendeu a atenção.
- Eu... - ele pensou por alguns instantes, não tinha interesse pela moça, já que ela estava ao seu lado, então ele poderia inventar qualquer tipo de história que ela acreditaria, e como é um passa tempo de viagem, ele não se preocuparia em que ela descobrisse a verdade. Mas isso tudo era só uma possibilidade na cabeça dele, não sei se optou pela verdade ou pela mentira. (Na verdade eu ainda tenho duvidas sobre o que é verdade ou mentira.) - trabalho em uma empresa de publicidade, faço a diagramação de outdoors. Isso já foi mais interessante, na verdade, no começo tudo é mais interessante, depois caímos em uma rotina que torna nossa vida tão monótona que já não seria tão ruim acabar em baixo das rodas de uma Scannia carregada. - ele gargalhava por dentro pensando no que a moça pensaria sobre frase tão pessimista. Mas perdeu a graça quando ouviu a resposta:
- Em verdade sua vida não é muito diferente da minha, sou atendente de uma grande operadora de celular, lugar desses que ninguém conhece ninguém, onde você é tratado como apenas mais uma peça na grande engrenagem das comunicações. - Nesse momento Erico, quer dizer Charles, percebeu que no sorriso dela tinha algo de sarcástico, sarcástico não, acho que macabro mesmo, e ela se divertia com isso - Muitas vezes eu quis pular daquela ponte - realmente tinha uma alta ponte no itinerário desse ônibus, e eles se aproximavam dela - inclusive eu peguei esse ônibus para tentar pular novamente, é bom que converse um pouco antes de morrer. Na verdade acho que era disso que eu precisava, conversar com alguém real de vez enquando, e eu quase me arrependo de ter tomado aquele vidro de Xanax antes de sair de casa, para ter certeza que eu não voltaria viva. - Charles gelou todo, e pensou em uma cena de filme a qual a mulher pedira para que a mantivesse acordada por toda a noite pois tinha tomado o tal Xanax. Junto com esse tipo de medo de estar com uma mulher prestes a morrer, lembrou, ironicamente, da maneira com que o sujeito a fizera ficar acordada a noite inteira. Isso mesmo, bastante sexo. E então voltou a si, a mulher estava morrendo à sua frente, e ele não percebeu o quanto seu rosto demonstrava surpresa. Até que o sorriso dela se transformou em gargalhada e ele se sentiu muito tolo por ter acreditado. Apenas virou a cara para a janela novamente.
- Ora - ela disse depois de ter parado de rir - me desculpe, é que eu bebi algumas doses antes de ter coragem, e fico assim eufórica quando bebo, me desculpe, desculpe, desculpe. Podemos fazer as pazes? - e estendeu a mão - não sei exatamente se ele se sentiu culpado por pensar que ela mentira, ou se sentiu pena dela novamente, o fato é que ele fez as pazes, agora lhe era visível que ela estava bêbada, embora ele não sentisse cheiro de bebida.
- Tudo bem tudo bem, digamos que você realmente esteja totalmente drogada à beira da morte, que posso fazer por você? - ele falava com tanta naturalidade que não sei se era seu jeito de falar ou se estava sendo sarcástico. - Quer que eu te mantenha acordada por todo o dia e também por toda a noite? - falou se lembrando do filme, e essa era a confirmação de que estava sendo sarcástico.
- Seria uma ótima idéia, que tal - e se aproximou bastante dele, o suficiente para ele sentir um cheiro de bebida bem fraco misturado com forte cheiro de menta, aquilo o intimidou e a maneira que ela roçou as coxas nas dele o excitou. - bastante sexo durante todo o dia e toda a noite? - e ela deu um beijinho no pescoço dele. Pessimista como já falei que ele é, voltou a desacreditar nessa história toda, achava que ela estava brincando com ele o tempo todo, esse pensamento o irritou profundamente, e com um sorriso de gato no rosto ele sussurrou.
- Não estou afim. Não estou nem ai se você vai morrer. - claro que ele esperava uma grande gargalhada dela agora, dizendo que ele era esperto por ter descobrindo a pegadinha, e já procurava com os olhos o grupo de amigos que estariam observando a performance dela. Mas ela apenas se levantou e desceu nesse mesmo ponto em que o ônibus parara. Charles ficou sem entender, se sentiu até culpado, mas se consolava pensando que foi o mais certo, que o mundo era perigoso demais para acreditar em qualquer um, em fim, em todos aqueles pensamentos moralistas que são tão úteis quanto uma dúzia de "blás". Voltou a olhar pela janela e percebeu que estava sobre a ponte.
posted by TRUNKAEL H MAIRS
9:55 AM
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Livro - Laranja Mecânica - Anthony Burgess
- Então, o que é que vai ser ein?
Ora ora ora ora ora meus druguis, vejam que Vosso Humilde Narrador leu um livro muito horrorshow na semana que se passou, com certeza seu inya lhes é familiar por sua versão cinemática, apresentar-lhes-ei então, meus druguis, sua versão livríca original.
Seu autor (Burguess) estava bolnói da gúliver e morreria em um ano, mudou-se para uma cidadeta para escrever o máximo de livros possível, shilarniado com o futuro de sua estica. Graças a Bog nosso autor não morreu quando devia, pois um livro ficaria sem terminar, e o livro é esse o qual fala Vosso Humilde Narrador.
Assim como George Orwell via um futuro totalitário e Adous Huxley via um futuro perfeito pelo condicionamento genético, nosso caríssimo Anthony Burguess via uma juventude drencromada e ultraviolenta. Um futuro de caos e kals.
E tipo assim meus druguis, devido a toda essa violência muimuito bem retratada no livro, nossos molodois poderiam ir para as presdatas e de lá serem condicionados a uma bondade, tipo assim, artificial.
As imagens que o livro cria são extremamente horroshow assim como um vinte-contra-um, e seus maiores esforços foram para compor uma nova língua (novilingua?) que fizesse seus humildes leitores ficarem ainda mais bizumni do que com a própria ultraviolência. Ele conseguiu causar o efeito desejado, e tudo ficou horrorshow mesmo, tipo assim.
E dir-lhe-ei de final, meus caros druguis, que o final surpreende, pois diferente do filme é. Para quem gosta de boa literatura é como um bom leite-com logo de manhã.
posted by TRUNKAEL H MAIRS
9:55 AM
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Mais Livros
O Velho e o Mar - Ernest Hemingway
É o primeiro livro de Hemingway que leio e creio que não dei o valor que ele, supostamente, merece. Eu esperava que o livro fosse uma história complexa com bom recurso de linguagem, mas o que vi foi uma história simples em uma linguagem quase jornalística.
Creio que o principal triunfo do livro é apontado já na sua apresentação, O velho e mar não poderia ter sido escrito de outra forma, é como que uma perfeição literária. A gente sente a dor e aflição do velho. A disputa dele com o mar. É visível que o livro quer mostrar a força de vontade humana, mas ainda é algo mais. Algo que não sei o que é.
É bem possível que eu é que tenha sido simplista com essa descrição, creio que ainda não absorvi a pureza narrativa de Hemingway.
Relato de um Naufrago - Gabriel Garcia Marquez
É o segundo romance-reportagem do GGM que leio, o primeiro, "Notícias de um Sequestro", falava sobre um seqüestro de uma mulher influente e desembocava no caso de Pablo Escobar (bem parecido com o que Caco Barcellos fez com Marcinho VP em "Abusado").
Relato de um Naufrago é exatamente o que diz o titulo. Teoricamente é a versão real da história de Luiz Alexandre Velasco que passou 10 dias no mar sem comer ou beber.
Devido à "lei" da proximidade, o livro não me pareceu interessante à primeira vista, mas como lido logo após o livro de Hemingway, ambos ganham uma interpretação especial.
O primeiro ponto em comum como se pode perceber facilmente é o mar. Mas podemos cavar mais fundo e entrar na teoria da comunicação, e diante da pergunta "o que é real?" poderíamos pegar os dois livros e apresentarmos como reportagens em forma de romance. Ou ambos como ficção, e ninguém saberia a diferença.
O Monstro - Sérgio Sant'anna
E nesse momento me sinto quase tolo por ter gostado mais desse livro que dos dois acima escritos por autores mundialmente famosos. Esse não fala de mar, velhos ou naufrágios mas do ser humano perante o sexo. Não de uma maneira vulgar ou erótica, mas quase que espiritual.
Sant'anna conta "três histórias de amor", e através de uma carta, uma entrevista e um flashback de um pianista em Chicago ele cria personagens mais reais que eu próprio.
A riqueza de pormenores que a historia de cada protagonista trás consigo impressiona. Um esquecimento aqui, um erro ali, frieza, ciúmes e logo acreditamos na existência de cada um deles.
Leiam leiam leiam. Os três. E tirem suas próprias conclusões ^^
posted by TRUNKAEL H MAIRS
9:55 AM
Discorde (
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