Estava com o semblante triste, ainda que não estivesse exatamente triste, mas apenas pensativo, parecia triste. Esboçou um sorriso de um segundo, que de tão rápido talvez nem chegou a se completar antes de se transformar em nada novamente.
- Um doce pelos seus pensamentos!
Primeiro ele apenas escutou desinteressado, como se não fosse com ele, depois decodificou as palavras e entendeu a frase, mas como ainda não fazia sentido, decidiu tentar entendê-la como metáfora e assim finalmente percebeu o gracejo. Quando começou a ver o mundo novamente um smiley lhe sorria sobre o fundo branco de uma blusa justa. Não foi tanto esforço, como fez parecer, olhar para cima e encarar o sorriso dela. Mas foi mais doloroso retribuir o sorriso do que fez parecer. Depois do contato feito se lembrou da frase que a moça proferiu um segundo atrás, era uma negociação. Teria que decidir se aceitaria simplesmente, faria uma contra-proposta ou rejeitaria apenas sustentando o sorriso que já começaria a parecer forçado.
Decidiu. E seu sorriso mudou de forma, coisa bastante subjetiva sabe, talvez a moça nem tenha notado a mudança. Decidiu pela contra-proposta, trocaria seu pensamento sim, mas não por um doce. Ora, doces estão em toda parte, um pensamento singular (e todo pensamento é singular) só poderia ser trocado por algo igualmente singular.
- Que tal um beijo?
Talvez ele nem tenha falado essa frase da maneira que entendemos por falar. Foi algo meio telepático, como se ele simplesmente tivesse movido os lábios alguns milímetros, e mesmo sem o som das palavras, ela o tivesse entendido.
Depois da contra-proposta, finalmente um sorriso sincero se aflorou no rosto deles. Ela, que não é boba nem nada, aceitou a troca, e como se fosse o momento decisivo na vida dos dois, ela abaixou e deu um daqueles beijos barulhentos na bochecha do rapaz. Nesse exato momento eles entraram naquela faixa de tempo que nunca decidimos se passou muito rápido ou se demorou séculos para passar.
De volta à posição original a moça sorriu feliz, e o rapaz retribuiu o sorriso com sinceridade. Então a moça se foi, não que esquecesse do produto que foi negociado, talvez um dia ela lhe cobre o pensamento, mas hoje já estava satisfeita apenas com o sorriso.
As vezes eu gosto de ficar relendo o blog. Vou lá no começo e cato alguns posts, revejo alguns comentários (e as vezes até acho um comentário novo em post antigo). Nesse momento aqui poderia muito bem ter um post como esse ou esse. E se eu fosse um pouco mais otimista, esse. (E se eu fosse brincar de adivinhação ainda acrecentaria esse).
Desde que colocou Internet lá em casa que eu não assisto Fantástico, e como me condicionei a não assistir TV, quando mudei para cá continuei sem assistir. No entanto na semana passada finalmente resolvi dar uma olhada no quadro da tal filósofa, ela falava sobre Hume, e eis que gostei bastante do quadro.
Por isso resolvi assistir o programa inteiro ontem, e percebi que ali tem muito assunto pra blog. Vejam por exemplo o caso das menininhas índias que foram salvas por missionários, isso me levou a pensar que os índios praticam a eugenia de forma deliberada e que isso é completamente natural apesar de parecer monstruosidade (e ser usado em argumento de neo-nazistas).
Vejam só, se nasce um bebê que não tem chance de sobrevivência eles simplesmente o matam, pois afinal, morreriam de um jeito ou de outro, e pior, colocando em risco a vida de seus pais. E ainda vem os cristãos sendo contra o aborto de bebês anencêfalos que não terão nenhuma chance de sobreviver, provando que são eles próprios que são acéfalos.
Mas vamos sair de discussão tão espinhosa e falar sobre a política, achei bastante interessante o fantástico trazer o passado de Maluf e Severino à tona, finalmente sendo suporte mnemônico para o povo brasileiro, quem sabe assim a gente não esquece tão rápido as maracutais políticas.
E falando de política eu tenho que falar um pouco sobre o Lula, coitado. Vocês aqui sabem que me abstenho de opinar sobre política mas quando observo a Veja metendo o pau no PT toda santa semana me dá vontade de defender os coitados. Creio que a maioria dos cidadãos brasileiros estão abismados que o tão aclamado partido dos trabalhadores esteja sujo até a cabeça, mas eu não me surpreendi, votei no Lula e sem a ingenuidade de pensar que ele tiraria o país da miséria.
Há duas questões que podem nortear uma defesa ao partido dos trabalhadores, uma delas é que para chegar ao poder o PT teve que (literalmente) vender sua alma para o diabo, e seria bastante inocência (eis o grande defeito do nosso pobre presidente) pensar que quando chegasse lá em cima era só rodar a baiana e mudar o mundo. Não não meus leitores, o poder não só corrompe como também aprisiona. O Lula não pode fazer nada, e isso leva à outra questão que uso para defendê-lo: todo presidente da republica será refém da Câmara de Deputados.
Ora, FHC pagava de 50 a 200 mil para votarem os projetos dele. Como um presidente pode governar se os palarmentares não votam seus projetos? Não há como governar se o legislativo não aprova. O grande problema está ali naquele covil de escorpiões que aprisionam qualquer pessoa que entrar no poder. Com o Lula não seria diferente, e pelo menos foi no mandato dele que isso foi descoberto.
Não meus leitores, eu não acho que seja impossível fugir das garras dessas raposas, mas depois de ganhar o poder você, inevitavelmente, tem que dar sua alma.
Mas deixemos a política de lado e vamos à filosofia. Não sei se vocês tem acompanhado o Fantástico, mas desde já aconselho-os a assistirem o quadro "Ser ou não ser?". De começo eu pensei que seria coisa bastante superficial, já que era direcionado ao povão em geral, no entanto descobri que é muito bom, não que aprofunde nos grandes filósofos, não chega nem perto disso, é superficial sim, no entanto ela coloca a filosofia de forma totalmente prática com exemplos que nos rodeiam todos os dias. Creio que esse é o grande trunfo do quadro, pois o que mais incomoda na filosofia é seu caráter teórico. Vejam, ela conseguiu colocar Kant, o filosofo mais teórico que existe em exemplos práticos. Aconselho que todos vocês assistam aquilo ali.
Bom, eu tinha mais coisas a falar mas esqueci. Bom que o post não fica tão grande.
Ela andava distraída por aquela calçada até que percebeu a Rosa. Seu coração se apertou, foi um susto de quem percebe e ao mesmo tempo é percebido. A Rosa a percebeu primeiro e é por isso que a pequena moça tomou conhecimento sobre a Rosa. Ficou olhando por algum tempo, num desespero de quem quer amar, num daqueles desesperos que pedem por cuidar de algo, num desses tão intensos que poderia extinguir a beleza da Rosa apenas com o olhar. Ela virou o rosto ofendida, virou de vergonha pois não poderia mais sustentar o olhar, a Rosa vencera, e agora ela pertence à Rosa.
Vencida voltou a olhar a Rosa, mas dessa vez, sabendo-se aceita, contemplava sem pudor. Se aproximou. As grades protegiam o jardim, sobretudo protegiam a Rosa. Tão bonita era que a menina se assustou novamente, talvez seu olhar pudesse roubar-lhe a beleza, desviou o olhar mas não por muito tempo. Novamente contemplava a Rosa, e não mais com uma piedade dolorosa, olhava com luxuria, queria a Rosa para si, e sabia que a Rosa também a queria, em toda a sua vermelhidão, a Rosa a queria.
Segurou a grade e contemplava a Rosa, se estendesse as mãos talvez pudesse tocá-la. Uma linda Rosa vermelha. Não poderia, seria pecado mortal mesmo querer tocá-la. Mas era o que a Rosa queria. Se insinuava para ela, seduzia abertamente a moça. Queria ser roubada, e a pequena mulher se enganava em pensar que o controle estava em sua mão. Era a Rosa que controlava a situação. A moça só precisava sucumbir ao instinto que todos temos, o instinto de roubar. Todos nascemos ladrões, e a menina, mesmo nunca tendo roubado, nasceu para isso.
Passou o braço pela grade. A Rosa parecia a seu alcance. Piscava para ela, queria-a. Se pudesse falar é isso que diria: "Te quero". E a menina esticou o braço o máximo que pode. Tocou-a. Com a ponta dos dedos tocou as pétalas da Rosa. Ficou por algum tempo assim, apenas encostando a ponta dos dedos nas pétalas. Sentia a textura. Sentia o cheiro e mais uma vez queria a Rosa para si. Desceu os dedos pelo caule da Rosa. Era o momento do roubo, momento que sem saber esperava a vida inteira, ela e a Rosa.
Precisava se comprimir pela grade, fechou os olhinhos, esticou-se, acertou um espinho.
Tirou rapidamente o braço, ofendida? decepcionada? não, complacente, cúmplice. Olhou o pontinho vermelho que crescia na ponta de seu dedo. Voltou seu olhar para a Rosa, não conseguia culpá-la, não conseguiria sequer sentir um pingo de raiva. A Rosa sempre esteve perdoada de todos os males que ela poderia causar em vida. A Rosa se desculpava, mas não era necessário. A Rosa a queria, a Rosa talvez até precisasse dela. A Rosa a amava? Não sei.
Uma pequena lágrima se formou no canto do olho da menina, era lagrima de dor física apenas. Ela, a Rosa, não desistiria tão fácil, com toda sua inconsciência chamava a moça para si. Mas com o dedo machucado a moça não mais poderia roubá-la. Esperaram a pequena gota de sangue secar, ela e a Rosa.
A menina que continuava na calçada se sentiu traída pela leve brisa que acariciou sua Rosa, a Rosa, que ficaria vermelha se já não fosse, desculpou-se silenciosamente. A pequena moça perdoa, claro, sempre perdoaria a Rosa que já nasce perdoada de todos os pecados.
Passou o braço pelas grades e tentou novamente. Era a Rosa que controlava, a menina nem tinha a pretensão de se pensar dona da situação. A Rosa queria ser roubada e isso não era uma desculpa. A moça sequer questionava. Esticou o braço novamente para agarrá-la. Antes de tocá-la contemplou sua beleza. Mas não por muito tempo, você sabe. E então tocou. Acariciava-a. Ficou assim brincando com suas pétalas por um bom tempo. E finalmente desceu ao caule para, com desespero, tentar agarrá-la.
Mas seu braço já não tinha força. Se tornava pequeno perante a Rosa. A moça se comprimia pela grade mas nada adiantava. Seu desespero era tamanho que se transformou em lágrimas. As mãozinhas tentavam agarrar a Rosa que queria ser roubada, mesmo com medo, queria. A Rosa que a havia escolhido.
Persistente permaneceu nessa dolorosa batalha. Era impossível que não conseguisse roubar a Rosa. Ela nasceu para isso afinal, para roubar rosas, e a Rosa nasceu para ser roubada. As lágrimas desceram com mais angustia. Tocou novamente nas pétalas da Rosa. Derrotada. Poderia simplesmente sair dali e nunca mais olhar a Rosa. Não agüentaria olhar para a Rosa que um dia quisera ser roubada. Ficou por algum tempo, acariciou a Rosa sem saber se a perdoava ou perdoava a si mesma. Despedia-se.
Sentou na calçada derrotada. As lágrimas que rolavam pelo seu rosto eram bem vindas pois eram sinceras. A Rosa também chorava? Não teve coragem de se levantar para averiguar. Ficaria ali pela eternidade lamentando o roubo frustrado. Ela precisava da Rosa. Será que a Rosa precisava Dela? Ou precisava de alguém? A angustia se abriu como um mar sob ela, já se afogava nas próprias lágrimas. 'De onde vem essa dor?' 'Será que ela não para?' É o que mesmo depois de várias semanas a pequena se perguntaria.
Quando se levantou não havia mais a Rosa Vermelha, em seu lugar uma Tulipa Amarela, distante e impessoal. Amarela. E mais uma vez a pequena chorou. Se tivesse nossa consciência se lamentaria por ter nascido. Lamentaria-se por um dia ter visto a Rosa. Nunca deveria ter visto a Rosa. A Rosa sequer existiu! Quem pode provar a Rosa? Não passa de um devaneio. A rosa esteve lá um dia, e deixou de existir sem ter sido roubada. A moça chora apertando uma Rosa imaginária contra o peito. E as lágrimas não paravam de rolar, e pelo que parece não vão parar enquanto existir a lembrança do momento em que poderia ter roubado a Rosa.
A muito muito tempo atrás eu tinha uma página chamada Teorias e Cospirações. Com ela eu queria mudar o mundo, aquela coisa meio Pink e Cérebro "Eu quero conquistar o mundo!!!". Bom, então atualizar a página passou a ficar muito enfadonho, e eu passei a não escrever direito, ai o Duanne (que tinha a Tarja Preta) fez um blog, e depois eu também fiz esse aqui, a TC ficou no esquecimento.
No entanto eu visito ela de vez enquando (é, ainda está no ar), e nos ultimos dias eu re-li todos os contos e descobri que apesar dos artigos serem muito ruins, os contos ainda são legais. Vou comentar aqui os contos que você encontra por lá.
Brincos: Esse é um dos contos de Isaac Monteiro, ele estudou comigo no segundo grau, e foi com ele que eu e Duanne criamos o grupo Cabeças Pensantes (que está inerte, diga-se de passagem ¬¬). Esse conto as pessoas normalmente lêem e ficam confusas, não sabem se o conto é ruim, ou se não o entendeu.
Anjos: Outro conto do Isaac, nesse aqui tem um segredo interessante, se ler com atenção fica até fácil de descobrir, mas normalmente as pessoas não percebem.
Tambores: E eis um conto meu. Esse eu fiz na época que eu estava lendo o Deuses Americanos, quando eu re-li eu fiquei meio na duvida sobre os personagens. Não sabia quem eram até que no final do texto me lembrei, no entanto acho que se outros lerem não vão descobrir quem ali que foi caçado.
A Palavra: Esse é um conto que na verdade deveria ser um artigo, bem feinho diga-se de passagem, mas que reflete exatamente meus pensamentos da época. Não leiam, é ruim.
Morrendo: Primeiro conto que o Duanne publicou na TC, com a fina ironia que segue todos os seus outros contos, uma fatalidade aqui? que importa, conte-me uma piada.
Sobre o Criador: Eu posso dizer sem ressalvas que esse aqui é o melhor conto que tem na TC, eu inclusive o publiquei aqui nesse blog há tempos atrás. Seu autor é o Duanne.
Luz, Sentido, Palavra: Mais um do Duanne, esse é interessante, me lembra contos meus, contos que nascem apenas com uma simples frase que você um dia gostaria de ter dito em algum contexto.
Caverna Interior: Desde aquela época eu já tinha a idéia de Anti-Heroi, mas antes só o Tyler Durden era meu mentor, a partir de Clube da Luta eu fiz esse conto que pretendia fazer o leitor chegar em seu self. Acho que não consegui.
O Sábio da Rua 5: Um desses contos que surgem a partir de uma frase de efeito. Com muito boa vontade você consegue aprecia-lo ^^.
Encontro de ICQ: Esse ainda gosto, mesmo naquela época era difícil eu escrever alguma coisa engraçada, e esse ainda abro um sorriso quando leio.
Machado de Lava: A sensacional ironia mágica do Black Mage. Conto antigo, da época em que ainda gostavamos de Dragon Ball Z.
O Clérigo e o Ateu: A-há, se você é um dos religiosos que acham que minha alma está encomendada pelo diabo então se surpreendam com essa histórinha que fiz depois de conversar com meu antigo barbeiro evangélico.
Deixa Rolar: Mais um elemento de Clube da Luta, só que esse eu sem querer distorci o foco entranto em uma discussão metafisica. Mal escrito, mas interessante.
Sacrificio humano: Outro elemento de Clube da Luta. Ainda não sei por que escolhi esse cenário, mas o recado está dado.
Catherine, Isabella, Acordeon e Toryan: Duanne gostava de escrever sobre os deuses que ele criava, e a história sempre era engraçada. Esses quatro contos ai são um pouco mais da ironia magica do b.m.
Cicatrizes da Vida: O primeiro e único conto de Kamila Duarte, minha amiga de Itabira que aconpanhava um pouco mais de perto minhas peraltices litarárias.
O Amor é Destrutivo: O ultimo conto que escrevi para a TC, e olha que nessa epóca eu ainda nem sabia o que era amor. Minha inspiração veio de um capitulo homonimo do The End Of Evangelion.
Uma das maiores discussões que tive aqui na blogosfera foi sobre o conceito de qualidade com a Lara Vedder (A-há, te citei novamente!). Nunca chegamos a um acordo (em verdade acho que em discussão nenhuma chegamos a um acordo ^^), ela está totalmente certa quando relativisa totalmente a qualidade colocando tudo em um mesmo patamar que só pode ser qualificado pela subjetividade de um observador.
Não há como revidar essa afirmativa, não existe possibilidade de uma coisa ter mais qualidade que outra por si só. No entanto eu tentei determinar alguns fatores que serviriam de balança para avaliar a qualidade de uma coisa. Confuso que sou, nunca apresentei de forma coerente o que o Protágoras chama de ponto de apoio.
Discutíamos principalmente sobre a qualidade da música, a qual o gosto é tão individual como as impressões digitais. O que eu não consegui explicar é que usando um método, determinando certos componentes da música, criando uma escala de valores baseado na harmonia e separando as músicas por gênero, poderíamos criar uma formula matemática que vai dar um tipo de pontuação para cada música de maneira a mostrar qual tem maior qualidade.
Ou seja, poderíamos comparar uma música clássica a um pagode, no entanto cada um seu gênero e suas formas, melodia e letra. Ou seja, determinada música de pagode pode ter nota máxima se encaixar-se perfeitamente nas proposições do gênero enquanto uma música clássica poderia ter nota baixa.
O grande erro contudo foi ter esquecido que a própria criação de gêneros e avaliação dos pontos de apoio são feitos por humanos, subjetivos, com gosto musicais totalmente individuais. Ou seja, foi uma discussão perdida, visto que é impossível que a qualidade se manifeste sem que exista um olho humano para avaliá-la.
PS: Leiam o livro "Zen e a arte da manutenção de motocicletas" do Robert Pirsig, é um ótimo ensaio sobre a Qualidade.
Eu fiquei pensando em alguns conceitos que uso por aqui e percebi que eu nunca sou claro com o significado deles. Esse negócio de caminho por exemplo, sabe-se lá o que isso significa? Creio que só alguns pouquíssimos leitores (me arrisco a dizer que só o Duanne), saibam exatamente o que eu estou falando, pois são conceitos que foram discutidos há muito tempo atrás, alguns em minha antiga página, outros só por e-mail. Então resolvi dividir a vida na possibilidade de três caminhos distintos, e eles se encaixam em várias outras divisões triádicas, como os três estágios de Kierkegaard por exemplo.
Abaixo tem os três caminhos básicos que alguém pode tomar. Cada um tem suas vantagens e desvantagens, e assim como os estágios do Kierk, as pessoas podem estar até nos três caminhos ao mesmo tempo.
O foco principal é a relação com a sociedade. O ser humano é um animal social e é a partir dessa sociedade que ele vai saber o que é. O Caminho do Cidadão é o default da vida humana, alguém pode viver sem nenhuma convicção, ou simplesmente seguir os conselhos dos pais (nem todos os pais, mas quase) acabará por seguir esse caminho, pois é o mais fácil.
Eu coloquei como "Cidadão", mas não é querendo dizer que a pessoa vai ser um exemplo para sociedade, essa é a meta, mas sabemos muito bem que as pessoas que tem a meta de serem bons samaritanos (como a maioria dos religiosos, Deus que me perdoe!) apenas ostentam uma imagem ilusória.
O que quero dizer é o seguinte, quem normalmente não tem um objetivo de vida maior, acaba seguindo o caminho que as pessoas vão apontando, esse daqui é normalmente seguido por aqueles religiosos de domingo, os que simplesmente vão ao culto e à missa e acham que sua vaga no céu está comprada. Nesse caminho temos também os materialistas, aqueles a que tudo que importa na vida é o volume de seu patrimônio, venderam pra eles que o que importa são os bens e hoje eles correm atrás de dinheiro como se esse fosse a própria felicidade. E até os eternos adolescentes que não tem nenhuma perspectiva de vida.
Em resumo esse é o caminho daqueles que simplesmente acreditaram quando as pessoas lhe dizem o que é importante. Deixo claro que os religiosos que estão nesse caminho são os hipócritas, aqueles que só pensam em Deus com hora marcada, muito diferente dos que vivem determinada doutrina religiosa como filosofia de vida.
O Caminho do Herói
Esse caminho se tornou bastante famoso com a invasão da cultura oriental. Creio que o mais famoso exemplo do Caminho do Herói é a trilogia Matrix. Não estou falando aqui que existem por ai "os escolhidos" com marcas invisíveis na testa, esse é um caminho que qualquer um pode escolher, e hoje em dia até está na moda, principalmente com a popularização da doutrina budista.
Aqueles que se cansaram das futilidades da vida moderna acabam procurando por um objetivo maior, normalmente nos caminhos da espiritualidade. O primeiro (e creio que o mais importante) estágio do Caminho do Herói é o auto-conhecimento, a pessoa vai devorar dezenas de livros, conversar com pessoas que estão em um "estágio mais elevado de existência" (seja lá o que isso for), meditar sobre os problemas reais e imaginários, enfim, ser um tipo de zen budista à procura do nirvana.
A pessoa que conhece esse caminho normalmente se depara com um grande obstáculo, que é a consciência do peso da existência. Vejo a todo momento (em vários blogs aqui do lado por exemplo), pessoa que entram no Caminho do Herói e hoje lamentam sua perdida e feliz ignorância.
O caminho do Herói trás uma visão de vida totalmente nova, as futilidades são tratadas com desdém, mudam-se os objetivos, deixa-se o materialismo de lado, controla-se a raiva, e muitas coisinhas do tipo. É aqui que estão os religiosos que realmente vivem a doutrina de seu Deus.
Em resumo esse é o caminho do auto-conhecimento, sabedoria e cultivo das virtudes, esse caminho nos mostra parte de nosso poder, o problema principal é que ele propõe uma responsabilidade que normalmente não estamos preparados para agüentar.
O Caminho do Anti-Herói
Esse é um caminho complicado, ele se difere do Caminho do Herói por que ele não tem seu alicerce em conceitos vagos como virtude e bondade por exemplo. Esse é o caminho dos cínicos, o caminho dos que questionam todos os conceitos pré-concebidos. Não existe um certo ou errado, as ações são divididas entre as que funcionam e não funcionam. Esse é o caminho do relativismo, aqui os fins justificam os meios, é nesse caminho que a pessoa finalmente percebe todo o poder que tem e escolhe como usa-lo.
Olhando assim parece até um caminho bastante perigoso para a sociedade, imagine o que podem fazer as pessoas que percebem que não existe nenhum limite. Felizmente a pessoa passa pelo Caminho do Herói antes de chegar nesse, é como se fosse uma sala de treinamento antes da verdadeira batalha. O a fase do herói coloca como sagradas certas virtudes, e mesmo os anti-heróis tem um código de honra para seguir, e é esse código que protege a sociedade.
Mas vamos deixar uma coisa clara, quando falo em sociedade eu não quero dizer que é possível que alguém saia por ai explodindo lojas como Tyler Durden. Não estou falando de ações imediatas e/ou físicas (embora muitas vezes essas ações aconteçam), quando falo em sociedade é desse sistema de relacionamentos vigente, essa forma de pensamento em que agradar um ser social é o que há de mais importante.
Essa é a principal diferença nos dois caminhos, o Herói tenta salvaguardar o status quo da sociedade, tenta defender as pessoas de alguns fatores externos que já não importam, é a defesa de normas a qual sua utilidade já se perdeu nas areias do tempo.
Não há motivo nenhum para que sigamos antigos preceitos morais, temos que experimentar estilos de vida totalmente diversos, não há como saber a melhor maneira de viver se olhamos apenas para um lado. Não importa se a sociedade quer isso ou isso de você ou se Deus quer aquilo ou aquilo outro, ora, mande os dois para o inferno e viva uma vida que seja legitimamente sua.
Acho que me exaltei. Bom, concluindo, esse é o caminho dos revolucionários. É esse o caminho escolhido por Hittler, mas que também foi escolhido por Sócrates, Nietzsche e até por Jesus.
Frase que todo mundo ouve por ai, 'o mundo dá voltas', coisa simples e perceptível, junte ela à 'um bater de asas de uma borboleta aqui, pode causar um tufão na China' e teremos os clichês que mais se aproximam do ideal do relativismo. O mundo é uma massa viva de acontecimentos, uma variável movida aqui pode causar uma reação de acontecimentos que só será visível daqui a 2, 10, 50, mil anos. E para colocar ordem nesses acontecimentos existe o homem, a medida de todas as coisas.
Todas as verdades são individuais, assim como os caminhos da vida só podem ser trilhados por uma pessoa, apenas uma vez, em toda a eternidade (a não ser que Nietzsche esteja certo em seu 'eterno retorno'). Para a formação de uma pessoa com as características que lhe são inerentes alguém teria que não só passar pelas mesmas experiências que você, mas também ter a mesma predisposição genética (ai que o behaviorismo falha).
Mesmo que o mundo conspire para que um determinado acontecimento se realize, a decisão sempre estará nas mãos de uma pessoa, e essa pode ir contra todos os cálculos que achamos ser possível fazer.
Isso tudo coloca nossas manias de fazer planos futuros em meio a um enorme mar de incertezas. E ainda que Aldo Novak diga que temos controle total sobre nosso futuro, essa também é uma ilusão para nos confortar. Não podemos ter como certo algo que não é decidido apenas por nós (como já disse Lara Vedder).
Então chegamos ao caminho. Lembro-me uma vez que eu e Duanne discutíamos sobre o que o ser humano deve buscar, e a felicidade nos pareceu o óbvio e ululante motivo da vida. Vamos então destrinchar as coisas. O que é a felicidade? A satisfação de todos os nossos desejos. Utópica e impossível, claro, mas é boa como objetivo. Então criamos sub-caminhos com objetivos menores.
O interessante é que tempos depois nós percebemos que o objetivo em si não importava muito, era o caminho a ser trilhado que era o principal objetivo. Como em uma aventura de RPG, o mais importante não é ganhar o jogo (completar a aventura), mas se aventurar, ganhar experiências e itens mágicos, uma jornada sem fim.
Esse é o problema da demasiada importância que dão para os objetivos. As pessoas esquecem de que precisam percorrer um caminho para chegar até ele, e acabam usando apenas em prol de um fim, quando na verdade a própria caminhada que importa. Essa nossa cultura nos condicionou a o que eu vou chamar aqui de O Caminho do Cidadão, um tipo de fórmula especial que temos que seguir para finalmente atingir uma ilusória felicidade.
Nenhuma criança questiona quando lhe perguntam o-que-quer-ser-quando-crescer, tem sempre uma resposta na ponta da língua 'quero ser astrônomo', 'quero ser astronauta'. Nunca vi nenhuma criança retrucar 'ainda não sei nada do mundo, como posso escolher minha profissão se não conheço nenhuma?'.
Não acredito em nenhuma pessoa que escolheu o curso certo de primeira, em minha sala mesmo tem gente que fala que desde sempre quis ser jornalista. Ora, isso me parece não mais que um condicionamento (ou até auto-condicionamento) que criou raízes e impediu até que a pessoa conhecesse outras possibilidades. Não há como prever o futuro, e não podemos nos enjaular nessas pequenas convicções pois são elas que nos limitam a apreender um mundo muito maior.
Mas também não gosto das pessoas sem rumo, dizem que muita coisa ainda tem que acontecer e acabam esperando o sinal divino para o resto da vida. Eu costumo deixar algumas portas abertas, 'se acontecer isso faço isso, se não escolho outro caminho'. Sem esquecer que sempre estamos em um caminho mais longo, caminho esse que não tem fim, pois seu objetivo é impossível. Diga-me você humano, se não é seu objetivo a felicidade?