"Somos castigados por nossas renúncias. Cada impulso que tentamos aniquilar germina em nossa mente e nos envenena. Pecando, o corpo se liberta do seu pecado, porque a ação é um meio de purificação. Nada resta então a não ser a lembrança de um prazer ou a volúpia de um remorso. O único meio de livrar-se de uma tentação é ceder a ela. Se lhe resistirmos, as nossas almas ficarão doentes, desejando coisas que se proibiram a si mesmas, e, além disso, sentirão desejo por aquilo que umas leis monstruosas fizeram monstruoso e ilegal." (Oscar Wilde)
A dois anos atrás dois jovens com vontade de mudança resolveram que algo deveria ser feito para que a páscoa não se tornasse apenas mais uma ferramenta do capitalismo. Bom, pelo menos era isso que eu pensava que seria a Operação Ovo de Páscoa quando seu idealizador me veio com a idéia: "O ponto é Jesus Cristo. Temos o filme como chamativo também e talz. E no site, pretendo alguns textos como aquele do John no Inquisitor, palavras que mostrem Cristo como revolucionário, anarquista e que façam comparações à outras filosofias existentes. Algumas curiosidades, alguns textos apócrifos (é esse o nome?) e só."
E como entusiasta revolucionário que sou, não poderia deixar ele fazer isso sozinho. Eu faria um site, distribuiríamos textos mimeografados nas portas das escolas e igrejas, no ano passado meu texto passou num jornal da rádio Educadora. Mobilizaríamos todos em prol de um resgate de significados (ou resignificação) da páscoa e "em trinta anos mudaríamos o mundo."...
A OOP seria para lembrar do homem por trás do ovo, mas por quê? Afinal, eu e b.m. nem somos cristãos não é?
Mas nós éramos revolucionários, o que importava era a revolução (falo isso da minha parte pelo menos, não sei se b.m. tinha alguma motivação mais nobre). Então mobilizamos pessoas, vendemos bem um idéia da qual não tínhamos certeza, muita gente escreveu, muita gente leu, e a páscoa foi um pouquinho mais doce, não por que nós lembramos de Jesus, mas por que nós lembramos de Jesus.
Não posso deixar de fugir da vaidade, não consigo deixar de pensar que toda revolução é fruto da vaidade de uma pessoa. Então depois de duas tentativas eu desisti, não quis mais fazer a OOP. "Faço o site, mas não consigo mais gostar da ideologia proposta para a OOP. Não me interesso tanto por religiões como há um ano, (...) Uma questão que me levou a esse pensamento foi "Se a Operação Ovo de Páscoa der certo (seja lá qual for seu objetivo) no que isso vai mudar minha vida?""
Bom, a resposta me veio simples e objetiva dessa vez, meu nome estaria escrito na história e meu ego estaria lustrado e brilhante.
Mas a idéia é boa, no entanto é uma luta feita pelas pessoas erradas, são vocês cristãos que deveria travar uma luta contra o consumismo, são vocês que deveriam lembrar de Jesus acima de todos os ovos de chocolate, se "não-cristãos" estão fazendo isso é por que você estão falhando em alguma coisa.
Hey b.m. será que alguém esse ano lhe procurou e perguntou se nesse ano teria uma OOP? Pois a mim não, não vi nenhum comentário, mal vi textos sobre páscoa nos outros blogs.
Bom, eu não queria me estender tanto em uma explicação assim, na verdade esse deveria ser um texto poético que explicaria o quanto minha páscoa foi boa. Teve ovo de chocolate (ouro branco, hummmm...) vinho (que, como não tínhamos copo, foi solvido de uma das partes do ovo), uma vista privilegiada da lua, e calor humano. Certamente a melhor OOP foi essa, que não existiu.
Primeiro devo me desculpar pela demora, a realidade está me tomando grande tempo. Não que vou abandoná-lo para sempre, mas certamente me verá menos vezes. Para que você entenda melhor minha necessidade de viver vou me permitir contar um pouco de minha história.
Esse espaço aqui foi criado com um propósito que até pouco tempo eu não conseguiria entender. Afinal, ter um blog não é, de maneira nenhuma, necessário à minha sobrevivência (e não venha me retrucar falando que Clarice Linspector escrevia para salvar uma vida, mesmo que seja a dela), mas foi importante para manter minha sanidade.
Eu precisava me manter ocupado para não sucumbir à loucura, eu tinha que adquirir conhecimento o suficiente para poder me persuadir que a vida valia a pena ser vivida. Como qualquer outro que carrega a alcunha de "nerd", minha fonte de conhecimento eram os livros, internet e jogos (e, por favor, não subestimem os jogos).
Mas todos sabemos que conhecimento estagnado não é sinal de evolução, e então eu precisava de interlocutores. Precisava de quem dissesse onde eu estava errado e provasse isso. O I.S. e as pessoas do "Circulo de Blogs" são os melhores exemplos que posso dar pra esses interlocutores (principalmente aquele que veio muito antes de blogs existirem: o b.m.).
Aos poucos fui descobrindo que escrever era como se olhar em um espelho e finalmente perceber qual é sua aparência. Um conto fala muito mais sobre o escritor do que seus ensaios. Aqui é muito fácil perceber isso, pois quando eu falo sobre alguma coisa eu tomo todos os cuidados para não ser mal interpretado, no conto me dou a liberdade de colocar minhas opiniões de forma fria e crua sem me preocupar com ética ou moral, pois afinal, é "apenas" ficção.
Quando se escreve você está construindo algo, tem o poder da criação divina. Você molda sua criatura e sopra vida em suas narinas. E ela se levanta, pensa, e questiona sua existência.
Olho para esse blog e ele questiona minha existência, será que fui eu mesmo que o escrevi? Será que são idéias minhas, ou simplesmente uma síntese da filosofia de todos que viveram antes de mim? Será que isso aqui sobrevive sem mim? Será que eu sobrevivo sem esse blog?
Creio que não caro leitor, eu não sobrevivo sem esse blog, não morrerei sem ele, mas ele é o único meio pelo qual vocês tem acesso à minha existência, sem ele paro de existir no mundo de vocês.
Aos poucos descobri que o que chamamos de presença física não se difere muito da presença virtual. O b.m. é muito mais real do que qualquer pessoa que eu convivi por 8 horas por dia em meu segundo grau. Claro que o fato dele não ter mais o meio que estendia a nós seus pensamentos não fará dele uma pessoa ausente, afinal nos começamos conversando por e-mails que já duram mais de 4 anos, ainda sim nossa amizade não é completa, pois nunca saímos pra tomar um porre juntos.
A presença é um meio de comunicação assim como a carta, tudo dividido em seus graus de completude e por isso, apenas por isso, a presença física deve ser valorizada acima de qualquer tipo de presença virtual, pois temos ali, a possibilidade de sermos completos.
E devo frisar a palavra possibilidade, pois não é pelo fato de estarmos ali fisicamente que estamos ali completamente. Percebemos isso de maneira bem fácil se pensarmos nas relações sociais durante uma festa, o que parece é que ali só está nosso instinto, as festas são o ritual humano de acasalamento, somente depois que festa acabar, onde não estamos mais com pinturas no corpo, é que aos poucos vamos nos entregando aos outros nas sinceras relações de amizade ou amor.
O amor... a bela desculpa criada pela religião para a monogamia, o cerne de uma moral ultrapassada, se quer conseguir a atenção de alguém coloque a palavra amor em seu discurso. Não existe o puro ou o incondicional, mas aquele complicado amor que nada mais é que a junção de tantos outros sentimentos e sensações. Se você pega um ser humano e disseca seu amor verá que ali naquele coração estão a comodidade, possessão, vaidade, dependência, instinto de perpetuação da espécie e outros que variam de pessoa a pessoa, cada um em um grau diferente, mas cada um fazendo parte do sentimento.
O amor me tomou muito tempo de filosofia, e bastou alguns meses para que eu me visse em suas afiadas garras e me arrependesse de tê-lo almejado. Mas não foi ruim, toda experiência nova é boa, tudo que pode servir como tensor estético é importante.
Foi após a minha experiência com esse sentimento tão perigoso que me entreguei realmente ao empirismo, foi a partir dai que Trunkael começou a morrer. Um personagem criado nesse mundo virtual e que tinha mais presença que seu criador, Trunkael começou a morrer quando eu comecei a amar.
Posso me arrepender de grande parte de meu passado, mas agora não me importo tanto com aquilo que perdi, pois percebo que tudo que passei foi extremamente necessário para que eu me tornasse a pessoa que sou, a pessoa que eu sempre quis ser. Não precisaríamos nos sentir superiores aos animais se não entendêssemos em que somos diferentes. Não é a capacidade de pensar que nos faz especiais, mas a capacidade de evoluir conscientemente.
O modelo vigente de educação é inútil justamente por que ensina aos jovens aquilo que a ciência mostra do mundo, deveríamos ser educados primeiramente para entendermos o ser humano, e a partir dai entender o mundo. Dizer o que é certo ou errado para uma criança não é sinônimo de educação, mas de condicionamento, o mesmo instrumento usado pela religião a milhares de anos.
Hoje já sabemos que a religião não é nada mais que o ponto de apoio de uma alma que está definhando sem saber por quê, a religião é simplesmente algo que nos distrai do peso da existência, algo que nós dê conforto perante os mistérios da vida e da morte, a força dos fracos e o conforto dos oprimidos.
Eu poderia muito bem ter continuado vivendo sob a máscara de um personagem perfeito, mas isso não seria a vida, mas sim como jogar "The Sims" para sempre. É exatamente isso que a maioria das pessoas estão fazendo, usando a vida como um jogo, como se pudéssemos parar de repente e continuar depois, como se depois do game over viesse uma tela perguntando: "Continue ?" ou talvez: "Ir pro céu agora?".
Não meu caro leitor, ainda que exista uma vida eterna, ainda que exista a reencarnação ou multiversos, a vida não deve ser tratada como um jogo.
Lembro-me agora que um de meus tutores, Nietzsche já tinha falado muito bem sobre esse sentimento, da vida ser única. Em sua teoria do eterno retorno ele nos faz pensar que devemos fazer nossas escolhas aqui nessa vida não como se existissem possibilidade de concertar nossos erros depois, mas como se fossemos repetir cada detalhe por toda a eternidade.
Pense em como seria repetir sua vida por toda a eternidade... pense nos erros, nas más decisões, nos arrependimentos. Esse é seu passado e seu futuro por toda a eternidade, portanto tudo que devemos fazer nessa vida é com a disposição de repeti-lo para todo o sempre. Se sua vida não é boa o bastante para ser repetida para sempre, então passe a viver a vida que gostaria de repetir pela eternidade.
Uma das coisas mais importantes que aprendi foi ter certeza que um dia vou morrer e que esse dia pode ser hoje. Já pensou em como seria se você morresse hoje? Você morreria feliz? O que então você deveria fazer para que, se você morresse hoje, você morresse feliz? Pensou? Então esqueça esse texto e vá faze-lo, corra atrás daquilo que vá trazer sua felicidade agora!
Mas se você ainda está aqui, vamos continuar.
Podemos aprender muitas coisas com as formigas e as abelhas. Uma vez o b.m. disse que as formigas são cristãs, creio que se referia à forma mecânica delas viverem. Cada uma com sua função predefinida e sem possibilidade ou vontade de mudar, simplesmente fazem aquilo que acham que um ser superior queria que fizessem.
Pense nas abelhas trabalhando. A fauna humana que povoa o mundo parece essas abelhas, cada uma cumprindo seu papel até que a morte lhe alcance.
Uma vez, malvado que sou, pensei no quão é importante as pessoas terem consciência de sua inutilidade e deixar o mundo por vontade própria, mas mais uma vez esbarro no vício do povo: a religião. Pense você que é um religioso, em por que um drogado simplesmente não se mata, já que uma hora ou outra ele vai morrer mesmo e compare a sua própria existência cristã, se afinal o paraíso está depois da morte, por que então não vão pra ele de uma vez? (ok, ok, finjam que suicídio não seja pecado, ou melhor, depois de pularem da árvore com uma corda no pescoço, se arrependam, é o suficiente para ir para o céu).
O drogado não se mata de uma vez por que ele quer ter a boa sensação causada pela droga até o resto de sua vida, assim como um avô que não tem mais função no mundo que viver o máximo possível para ter chance de ver seus filhos e netos crescerem. Tudo que importa é a satisfação de ver e sentir as coisas acontecendo, sem necessariamente faze-las acontecerem.
Ao invés de buscarem por uma vida de aventuras ou romance, as pessoas preferem assistir a vida acontecer e permanecer sonhando em um sono pesado que já dura muitos milênios.
O que me diz da febre dos Realitys Shows? Não é o exemplo máximo da pequenês de um espírito humano?
Lembro-me de que no livro "Onze minutos" do Paulo Coelho (que li a muuuuito tempo atrás, largem essas pedras), entendi o porquê as pessoas perdem a vida tão facilmente em frente a televisão. Um leitor disse a Paulo Coelho que seus livros lhe faziam sonhar.
E para sonhar meu caro leitor, você tem que estar dormindo, e para estar dormindo você deve permanecer num berço formado por uma religião ou um sistema que lhe proteja dos inexistentes monstros que moram sob sua cama.
Mas não posso monopolizar essa carta falando sobre alienação, pois só podemos entende-la por vontade própria, não há ninguém que consiga provar a uma pessoa o quão ela está alienada, ela mesma que vai percorrendo os caminhos certos (não que exista apenas um correto, são infinitos esses caminhos, cada um alcança o discernimento por um caminho diferente) para perceber isso. Se não percorre esses caminhos dormirá para sempre, o que não deve ser ruim já que é a escolha da maioria.
Vamos voltar à morte de Trunkael, o símbolo de minha libertação. Quando não se consegue ter a vida que sonhamos temos duas opções, dormir na vida que temos para sonhar com a vida que queremos, ou criar um novo mundo onde nossos sonhos se tornam realidade. Isso acontece o tempo todo, são bilhões de pessoas que vivem virtualmente, não necessariamente na internet, mas por todas as formas de simulação, seja com a facilidade de uma esquizofrenia ou pela pura e livre criação de um universo paralelo.
Não é necessário livros que nos façam sonhar quando conseguimos transformar nossos sonhos em realidade. A Matrix foi criada justamente como forma de manter as pessoas dormindo no mundo real. A quantidade imensa de informação e entretenimento a que somos bombardeados todo o tempo são nossas distrações, se é possível viver feliz sem pensar, então por que pensar?
Se você sonha em ser personagem daquele romance que você mais gosta por que não busca-lo aqui na vida real? O tempo todo babamos sobre o nome de pessoas que escreveram sua história como um bom livro de aventura ou amor. Esquecemos que nós podemos fazer o mesmo.
A grande pergunta que me faço o tempo todo é: Como mostrar as pessoas o poder que elas tem? Como convence-las a buscar seus sonhos? E a resposta me vem vaga, pode ser através de uma melhor educação, a dizimação da religião e todos os meios de alienação, a destruição do capitalismo (onde as pessoas deixarão de se preocupar com a sobrevivência e passam a pensar na vivência). São tantos fatores necessários que se torna um sonho inalcançável.
Então a pergunta muda: O que eu posso fazer agora para fazer as pessoas perseguirem seus sonhos? E então entendo o por que criei esse blog, assim como o por que eu tinha criado a "Teorias e Conspirações", uma inútil tentativa de acordar as pessoas.
Nem se eu dominasse a mídia eu teria esse poder. Percebi que não posso mudar o mundo daqui de casa, não posso usar um mediador para o que eu quero dizer tenho que ir e conversar com cada pessoa, tenho que ter contato humano, pois assim também poderei aprender muito, poderei viver muito mais.
O Trunkael morreu por que descobri que eu posso fazer mais e melhor do que ele fez. Por que eu tenho uma presença física, eu posso ser completo, ele não.
Uma internet pode sim ser um ótimo instrumento para conhecer pessoas, mas que deve ser usado como início, o que fica somente no virtual fica inerte, cria fungos e apodrece. Temos que buscar o máximo de proximidade com as pessoas, só com elas que aprendemos, só com elas que podemos nos sentir completos.
Não adianta vivermos em sociedade como formigas, se relacionando superficialmente com os outros e cumprindo o papel que "alguém" disse que devemos cumprir. Nossa busca é pelo entendimento do homem pelo homem. Temos que ter claro em nossa mente o porque vivemos em sociedade e como podemos nos usufruir dela. Para você que acredita que temos uma missão na terra te contarei um segredo, temos duas: evoluir e ser feliz.
E uma não pode andar sem a outra, pois buscar pela evolução sem almejar a felicidade torna a vida mecânica e almejar a felicidade sem buscar pela evolução nós faz inúteis.
Bom, é isso que eu gostaria de dizer pessoalmente a todas as pessoas, mas minha vida é muito curta, espero que eu consiga pelo menos plantar uma semente e que outras pessoas possam mostrar melhor do que eu que a vida é importante demais para perde-la em frente uma televisão.
Acho que fico por aqui caro leitor, espero que você responda rápido dessa vez. ^_^