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"Somos castigados por nossas renúncias. Cada impulso que tentamos aniquilar germina em nossa mente e nos envenena. Pecando, o corpo se liberta do seu pecado, porque a ação é um meio de purificação. Nada resta então a não ser a lembrança de um prazer ou a volúpia de um remorso. O único meio de livrar-se de uma tentação é ceder a ela. Se lhe resistirmos, as nossas almas ficarão doentes, desejando coisas que se proibiram a si mesmas, e, além disso, sentirão desejo por aquilo que umas leis monstruosas fizeram monstruoso e ilegal." (Oscar Wilde)

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Segunda-feira, Maio 01, 2006


Manual do Viajante

Uma das idéias que mais marcaram na filosofia ¿criada¿ por mim e Duanne nos últimos anos foi a teoria do Viajante. Para adquirir mais conhecimento, para viver mais experiências, para conhecer mais pessoas, concordamos que devemos sempre nos reciclar, ir a novos lugares, conhecer pessoas diferentes, sair da rotina todas as vezes que for possível. No meu caso eu mudo fisicamente de lugar. Minha decisão de vir morar na floresta por alguns meses veio dessa ânsia de mudança e a mudança é sempre uma fuga.
O viajante se forma sempre numa fuga, seja de um garoto que morava com os avós e resolve morar com a mãe, ou de um adolescente que sai da cidade para fazer faculdade. Quando estamos insatisfeitos com o status quo a melhor opção é a fuga.
Uma vez eu disse que talvez (apenas talvez) as pessoas que fugiam eram fracas por não suportarem a realidade de onde vivem, mas descobri que fracas eram as pessoas que ficam por se manterem no julgo de uma rotina repressora. A mudança dá muito trabalho e na maioria das vezes o filho pródigo volta para casa. Mas quando ele não volta se torna um Viajante.

Mas não adianta nada se tornar um viajante sem saber o que quer, o viajante nasce de uma fuga, mas só sobrevive se tiver um foco, pois certamente, mesmo em outro lugar, se criará uma nova rotina que no começo pode parecer agradável, mas depois se mostra tão, ou mais, angustiante que a anterior.
A idéia é não ficar parado, quando se acostumar com as coisas deixa-las para trás. Mas para entender esse ¿deixar para trás¿ temos que lembrar de um ponto fundamental de nossa filosofia: a proximidade a partir da sinceridade absoluta.

O foco principal de nossa filosofia sempre foi a busca pela felicidade e o auto-aperfeiçoamento, e certamente não queríamos a felicidade dos tolos, a abundância de alegria naqueles que querem pouco da vida. Para ser feliz basta querer pouco da vida.
Precisamos aprender ao mesmo tempo que temos bons momentos, precisamos aprender enquanto estamos com outras pessoas, precisamos aprender sempre, e essa ganância de uma coisa que é ilimitada, o conhecimento, acaba por deixar o sentimento de completude cada vez mais distante.

Em teoria nós nunca vamos conseguir conhecer uma pessoa por completo, isso por causa do relativismo, o observador inflige mudança no ser observado, sendo assim não é possível acompanhar as mudanças e recalcular as variáveis ao mesmo tempo. Você quando convive com uma pessoa você pode conhece-la até um certo ponto, daí pra frente você só vai ¿atualizar¿ sua visão da pessoa.
Há duas maneiras de chegar ao ponto de conhecer alguém dessa maneira, na amizade verdadeira e no amor verdadeiro. E não falo apenas do sentimento de um ou outro, mas da ação de ser amigo e de amar. Mas vamos lembrar aqui que para ter essas duas possibilidades ambos tem que estar no nível que um dia chamei de sinceridade absoluta, onde nenhum pensamento passe sem que o outro não saiba.

Eu calculei que nessas duas possibilidades você ¿conheceria¿ a pessoa dentro de um ano, não é necessário mais que um ano, depois disso só atualizar-se-iam a cada dia, mas nada de realmente novo poderia acontecer (lembrando novamente que isso num caso hipotético de sinceridade absoluta).
Portanto teríamos um tempo limite em que um viajante poderia ficar com uma mesma pessoa para amar. Depois desse ano naturalmente o amor se converge em amizade, pois ambos vão querer conhecer outras pessoas, caminhar por outras possibilidades.
As amizades podem durar para sempre, pois afinal, moralmente, pode-se ter vários amigos, mas apenas um amor (e ainda não é tempo de discutir o que significa esse ¿moralmente¿ em meu texto). Portanto a idéia do viajante é ter o maior número possível de amigos sinceros e ter um amor, com quem vai, efetivamente, dividir a vida durante um ano pelo menos.

Mas vamos aprofundar um pouco, Rita Lee diz que amor sem sexo é amizade e é simplesmente essa a diferença entre um e outro. Pegando aqui aquela teoria do Campo A.T. vamos lembrar que cada pessoa se defende de todas as outras usando um campo de energia que pode defender tanto o corpo quanto a mente.
Quando nos aproximamos das pessoas temos passe livre dentro desse campo de energia e assim podem conhecer melhor a pessoa e participar efetivamente de sua alma. O viajante procura o máximo dessa aproximação com o máximo numero de pessoas que conseguir, pois ele sabe que é por essa maneira que vai conseguir evoluir e ajudar as outras pessoas a evoluírem também. (Afinal, talvez sejamos pontos de uma mesma consciência).
É impossível ter uma aproximação verdadeira se não existe o toque físico, é por isso que um possível ¿Viajante Virtual¿ teria menos alcance do que um Viajante que se mova fisicamente pelo mundo. Não há nada que substitua olhar nos olhos de uma pessoa.

Uma pessoa que se torna Viajante é um mago que passa a distorcer a realidade e ser distorcido por ela. É um sempre estrangeiro que onde chega pode ser temido, desprezado ou idolatrado. O Viajante com o tempo descobre como ser simpático e empático, e os mistérios sobre o comportamento humano vão se diluindo. Aos poucos ele ganha uma aura de sabedoria que pode ser percebida antes mesmo dele abrir a boca.
O Viajante Mago quando chega numa nova cidade automaticamente trás com sigo o signo da mudança, dependendo de sua força de vontade ele poderá ser totalmente moldado pela nova realidade, ou moldar todo um meio apenas com sua presença. Percebemos isso de maneira simples quando chega um aluno novo para estudar em nossa sala, normalmente ele é rapidamente moldado pelo paradigma pré-existente para poder entrar rapidamente nos grupos dominantes, mas as vezes há alguns ¿novatos¿ que já chegam para liderar um novo grupo e toda a realidade é alterada.

Toda viagem é uma procura e talvez nosso Viajante finalmente ache aquilo que trará conforto à sua alma em um desses cantos do mundo. Prevendo que que ninguém pode correr para sempre, um dia o Viajante terá que parar e finalmente ficar raízes em um lugar, um dia o nosso Viajante vai achar finalmente uma pessoa que seja tão especial a ponto de abdicar de sua liberdade para viver com ela para sempre. Essa pessoa pode, inclusive, ser uma pessoa que o Viajante já amou em outras épocas, mas que ainda não tinha chegado o tempo para unir-se definitivamente.
Ao chegar nessa fase nosso Viajante já terá se movido tanto que o que vai lhe faltar é justamente a inércia, e assim vai aprender a ultima lição da vida, ser expectador do crescimento das sementes que plantou.


posted by TRUNKAEL H MAIRS 9:55 AM

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