"Sou o proprietário da minha potência e sou-o quando me sei Único. No Único, o possuidor regressa ao Nada criador de que saiu. Todo o Ser superior a Mim, quer seja Deus quer seja o Homem, enfraquece diante do sentimento da minha unicidade e empalidece ao sol desta consciência." (Max Stirner)
Enquanto dava aula para uma turma da 3º série Jane Elliot convidou seus alunos para fazer um exercício sobre o racismo. As crianças animadas esperavam mais um divertido jogo de sua professora querida, no entanto o que ela fez foi rotular as crianças que tinha olhos azuis com uma 'coleira' de pano e criar um clima de racismo contra elas.
Não é preciso dizer que para as crianças foi uma experiência traumática, não há melhor maneira de entender o racismo que sentir na pele a discriminação.
Em seu documentário "Olhos Azuis" Elliot faz a mesma experiência com adultos, desde a entrada, ela trata mal as pessoas de olhos claros, coloca-lhes uma 'coleira' e os deixa esperando dentro de uma sala mal ventilada, com poucas cadeiras e sem comida.
Para a experiência dar certo as pessoas de olhos castanhos devem afirmar a posição de Jane, discriminando com toda a força as pessoas de olhos azuis. E não é necessário grandes ofensas, pedir para a pessoa repetir uma palavra diversas vezes por não tê-la pronunciado corretamente já o coloca em duvida sobre a própria inteligência.
A professora consegue ser tão ríspida que várias pessoas choram quando são humilhadas por perguntas retóricas e uma série de questionamentos que levam a pessoa a pensarem ser completamente incompetentes.
O tempo todo ela lembra que mesmo os atos mais simples, como o de dizerem que todos são iguais, ou que não se enxerga a cor das pessoas, são atos puramente racistas, e mesmo quem tem amigos negros está impregnado dessa discriminação.
Jane acerta em pegar exemplos e fatos transformando em fortes argumentos contra racistas enrustidos, pois não adianta falar que suas origens não são arianas, ou dizer que já sofreram outro tipo de racismo, pois nesses casos um branco de origem negra pode se passar como branco, assim como um homossexual pode passar por homem, mas um negro, ele leva a essência de sua discriminação na própria pele e não pode fugir disso.
O mais interessante na "técnica" da professora é que ela, para educar contra o racismo, usa a mesma técnica que mantém a discriminação na sociedade: o condicionamento. Certa hora pensei que ela parecia com Skinner fazendo experimentos com seus ratinhos, condicionado-os a sentir o que ela quer que eles sintam e a pensar o que ela quer que eles pensem.
Certamente poderia ser uma fonte de crítica essa atitude de Elliot, apesar de eu colocar na educação consciente a resposta contra todos os males, nesse caso aplaudo a atitude da professora, pois não há tempo para educar. Nesse caso o mais lento condicionamento sempre será mais rápido do que a mais avançada educação. A sociedade ainda não está preparada para receber uma educação anti-racismo, portanto a solução mais simples é condiciona-la contra isso, assim como foram condicionadas para agirem de forma racista durante toda a vida.
Exagerar na dose de discriminação durante sua experiência foi essencial para condensar em pouco tempo a humilhação que uma pessoa discriminada sofre durante toda a vida. Apesar de não resolver de forma definitiva o problema, com certeza ela tem o resultado almejado, como ela mesmo diz, se ela conseguir mudar uma pessoa naquela sala, a experiência foi válida.