"Sou o proprietário da minha potência e sou-o quando me sei Único. No Único, o possuidor regressa ao Nada criador de que saiu. Todo o Ser superior a Mim, quer seja Deus quer seja o Homem, enfraquece diante do sentimento da minha unicidade e empalidece ao sol desta consciência." (Max Stirner)
Foi num belo dia de verão ao entardecer
Que lindos olhos um sorriso me recusaram
Meu coração começou logo a entristecer
Pelas máguas que ali mesmo começaram
A dor sentida foi tão forte
Que sem forças p'rali fiquei
Sofrendo impune duma lenta morte
Mas com o olvidio um bálsamo apliquei
Em silêncio esperei um ano inteiro
Crescendo em mim uma triste paixão
Fruto verde deste amor primeiro
Que poderia ter-me levado ao caixão
Foi então que esse sorriso veio
Suave e lento como uma folha caída
Meu coração quedou-se num doce enleio
Vivendo nesse minuto toda uma vida comprimida
Foi um enlace tão terno e deminuto
Culminado por sorriso tão singelo
Foi uma vida inteira num minuto
Vivida tão intensamente e em sigilo
Sim! com o olvidio um bálsamo apliquei
Durante três longos anos de sobrevivência
Nessa luta mais homem assim fiquei
Foi um sorriso que aconteceu na adolescência.
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Sexta-feira, Abril 27, 2007
Limiar
É estranho pensar sobre a maneira sutil em que a vida muda. Há apenas 7 anos atrás eu liderava um exército de quase 10 crianças que aprenderam tudo que sabiam comigo e com os desenhos japoneses. Tudo que meus primos precisavam naquele tempo era eu, e tudo que eu precisava era deles.
Não me lembro exatamente quando eu me afastei, mas creio que foi tão sutil como está sendo agora o começo da minha pequena e controlada insanidade. Em meio a pensamentos impossivelmente amorais e tentativas incessantes de alcançar a loucura me pego lendo perfis de pessoas que já não conheço e que gostaria muito de conhecer novamente.
Mas o propósito dessa conversa não é reparar alguma lacuna em meu passado, a idéia de escrever me veio quando me lembrei de um dos pensamentos que causou a ruptura mencionada: a percepção da inutilidade dos valores convencionais. Isso por que eu deixei meus pupilos para trás justamente para me agarrar a esses valores. O começo da adolescência, época de estranho sofrimento, trás a ânsia por um mundo que parecia impossível. Esse mundo adulto me parecia tão encantador como deve parecer a qualquer outro adolescente na face dessa terra.
O conhecimento se apresentou a mim, o cortejei e o abandei assim como fiz com muitas mulheres (que, alias, nunca beijei). O trai com as coisas mundanas para depois me arrepender e voltar ao que realmente importava. Mas como se fosse um daqueles romances complicados, a separação e volta aconteceram muitas vezes mais, algumas por coisas mais atraentes como o amor verdadeiro e a felicidade eterna. No entanto o sofrimento acaba sendo motivo suficiente para deixar de lado essas ilusões.
Hoje me pego em novo limiar, tentando a força entrar novamente na minha adolescência perdida. Não que eu vá entrar numa crise pirracenta daquelas que hoje tenho birra (até gostaria, mas meu racionalismo infelizmente não me deixaria ir tão longe). O cinismo é sempre meu refugio e Balthasar Grácian (o grande hipócrita) nesses casos é meu mentor.
Do que preciso afinal? Não tenho nada, mas o que eu tenho me basta? (ao menos enquanto eu não tiver um filho para criar!). Minha busca por amor se cessou no dia exato em que descobri o poder da atração. Coisa e coisas são só coisas, nada me interessa realmente. Como se eu reencontrasse Tyler Durden eu percebo que sim, minha grande guerra é espiritual.
Se hoje resolvo fazer coisas absurdas não é por querer chutar a bunda das convenções sociais (nem se eu quisesse, afinal desconheço algo que não está convencionalizado em algum lugar ou mente). A mudança é quase subliminar, não transparece pois não há motivos.
Olho para trás e não vejo boas histórias para contar, minha vida não teve o alicerce das loucuras sádicas ou engraçadas dos grandes autores. Que posso contar para os meus netos? Não há histórias, creio que as terei que inventar, ou finalmente aceitar a opção de que tenho apenas 22 anos e posso fazer muitas coisas interessantes ainda.
Eu e meus primos construíamos cabaninhas de 2 andares usando bambus, dormíamos nela, contávamos histórias pouco interessantes e as vezes tentávamos fazer algumas molecagens. Mas as realmente boas não vieram da minha mente, que era muito santa e muito boba.
Devo dividir minha mente e viver uma vida imaginada?
Alguma coisa está mudando e dessa vez eu sinto emocionalmente, não é como aquelas mudanças de paradigma que eu pregava como se fosse uma profecia. Como eu disse é algo bem sutil, como foi o abandono de meus primos.
Acabo de assistir ¿Pequena Miss Sunshine¿ e não sei bem o que pensar. Eu poderia fazer uma análise do roteiro, da fotografia ou da mensagem que o filme passa. Mas não creio que há mensagem, na verdade não quero que exista alguma mensagem ali, assim como não quero congelar uma temática no ¿Old Boy¿. São filmes totalmente diferentes, mas que me deixaram a mesma sensação, uma coisa puramente estética, como se jogasse todas as palavras fora e sobrasse apenas o sentimento.
Em alguma época minha vida parecia um ¿Clube da Luta¿ para mudar rapidamente para ¿Um amor para Recordar¿ e assim continuar mudando como se a realidade não fosse mais do que alguma obra literária. E então reassisto minha vida e me vem o mesmo sentimento, histórias bobas que acabam não se transformando em nenhuma mensagem de verdade, se fossem um dia bem contadas causariam só um pequeno sentimento de qualquer coisa. De coisa humana que vê algo vivenciado por outra coisa humana.
É apenas minha história e não a da humanidade, não causaria êxtase a mais ninguém. E agora embarco de carona procurando uma aventura que gostaria que fosse na Tasmânia, mas talvez só seja na cidade vizinha.
O que devemos querer da vida afinal? Hoje me parece muito óbvio que não é dinheiro e possivelmente nem felicidade. Queremos apenas viver boas histórias, pois só assim podemos viver de verdade. O resto? Ah. O resto é como masturbação, apenas uma preparação pra coisa real, um pequeno alívio, um atraso da depressão que está a espreita. Trabalho, estudo, namoros em conveniência. Realmente não precisamos disso, e quando eu falo que tudo que deveríamos buscar é a pura diversão não é por que o hedonismo de repente se torna minha religião. Falo de uma diversão mais absurda e absoluta. Fazer coisas, criar história boas, viver como se realmente fizesse parte de um bom livro.
Bom, nem sei como consegui escrever de forma tão caótica, mas pelo menos saiu alguma coisa daqui de dentro. Para quem escreve não há nada mais angustiante que a falta de inspiração, e ainda que esses escritos não façam nenhum sentido para você. Bom, não há nenhuma mensagem de verdade mesmo. Simplesmente jogue fora as palavras e fique com o sentimento, pois é exatamente isso que vou fazer.