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"Somente quem tem o caos dentro de si pode dar à luz uma estrela bailarina." (Nietzsche)

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Não Sei Quantas Almas Tenho
Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não atem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.
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Segunda-feira, Março 24, 2008


O Dilema do Ouriço

“Mesmo que um ouriço queira chegar perto de outro de sua espécie, quanto mais eles chegam perto um do outro, mais eles se machucam com seus espinhos. É a mesma coisa com os humanos.”

Obviamente essa afirmativa não é exclusividade minha, creio que todos nós somos de certa forma ouriços, só que alguns não tem tanto medo dos espinhos alheios. Infelizmente não é o meu caso. Passei toda a minha adolescência fugindo das pessoas, evitando qualquer contato para que eu nunca machucasse ninguém e nem fosse machucado.

Mas a vida acaba nos ensinando coisas importantes no caminho:

“Se não se aproximar dos outros, nunca será traído e nem machucará ninguém... Porém nunca vai conseguir esquecer a solidão...”

Uma hora ou outra a solidão se torna insuportável, e acabamos por desistir de parte de nossa armadura protetora para receber outras pessoas em nossos corações. Nessa empreitada tudo que sabemos é que vamos nos decepcionar, mas tendo arriscado uma vez, nunca mais voltaremos a clausura de nossa alma.

Tudo que conhecemos em relacionamentos é a decepção final, é praticamente impossível não se decepcionar com as pessoas, não por que todas elas são aptas a nos trair, mas simplesmente por que cada um tem uma filosofia de vida diferente. O que pode ser de extrema importância para mim, talvez não tenha importância nenhuma para você.

As prioridades que escolhemos são parte de nosso comportamento, os objetivos que buscamos representam nossa identidade, os caminhos que escolhemos para chegar até eles, moldarão nossa personalidade. Observando esses fatores dá pra se ter uma visão geral de como a pessoa se relaciona com o mundo.

Mas ainda há a nossa natureza, parte indecifrável de nossa alma, elemento que mal conhecemos o nosso e que seria impossível conhecer o do outro. A nossa natureza é selvagem, foge da racionalidade, ela controla tudo por trás de nossas decisões, se baseando em todos os nossos medos primitivos e vontades suprimidas.

Se para conhecer a si mesmo, e aceitar nossa natureza, já é tão difícil, imagine aceitar a personalidade alheia? Não podemos ter a prepotência de achar que podemos entender as pessoas, pois não conseguimos nem nos entender. O relacionamento estável onde desabrocha o amor é feito unicamente da tolerância, aceitando as divergências de opinião e evitando as comparações inúteis entre seres tão singulares.


posted by TRUNKAEL H MAIRS 3:25 PM

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Terça-feira, Março 18, 2008


Bússola Dourada o livre pensamento para crianças

“Existem muitos universos. E muitas Terras, paralelas umas às outras. Mundos como o seu, onde as almas das pessoas habitam nos seus corpos. E mundos como o meu, onde as almas caminham ao nosso lado como espíritos animais a que chamamos dimmons.
Tantos mundos... todos ligados por uma só coisa: a Poeira.”


Não posso deixar de gostar de um mundo onde sua alma em forma de um animal anda ao seu lado. Obviamente também não posso deixar de comparar a “Mago: A ascensão” e seu Avatar circunspecto em um familiar. Afinal, em teoria é possível buscar um espírito para seu familiar, ou encantá-lo com sua própria essência mágica.

A história é sobre a luta dos livre-pensadores, contra o Megesterium.
Mas o que é Megesterium?



“O Megesterium é aquilo que as pessoas precisam. Mantém as coisas funcionado, dizendo às pessoas o que fazer. (...) Algumas pessoas sabem o que é melhor para elas, outras não. Além disso... eles não dizem às pessoas o que fazer duma maneira rude. Dizem-lhes o que fazer de uma forma gentil. Para os manter fora de perigo.”

Uai, essa instituição parece bem bacana não é? Mas no Vatican... quer dizer, Megesterium, ouvimos outro tipo de conversa. Uma conversa conspiratória, ilustrando o por que esses padres e pastores querem dominar a educação das crianças: para obter a autoridade absoluta!

“Se ele conseguir provar a existência destes outros mundos, vai contrariar séculos de ensino. Haverá sempre livres pensadores e hereges. A menos que lidemos com a raiz do problema. É por isso que o trabalho da Sra. Coulter é tão importante. (...) Os doutores em Bolvangar estão perto de aperfeiçoar a vacina contra os efeitos da Poeira. Se conseguirmos proteger as nossas crianças da má influência da Poeira, antes que os seus dimmons atinjam a maturidade então teremos gerado uma geração que estará em paz consigo própria. Uma geração que não voltará a questionar a nossa autoridade.”

Bom, será que estão falando de Galileu e das cruzadas missionárias? Ou será que estou confundindo as histórias?
Enquanto eu assistia a Bússola Dourada eu simulava uma guerra contra as Crônicas de Narnia. São dois filmes bonitinhos, mas enquanto Narnia fortalece uma religião, a Bússola Dourada derruba. Se C.S.Lewis quer catequizar, Philip Pullman Liberta.
Se vocês acham que estou sendo duro demais com o cristianismo escutem essa. Enquanto tentavam tirar os dimmons das crianças, evangelizando-as para sempre, me lembrei imediatamente de uma frase proferida pelo personagem de Edward Norton no filme “Despertar de uma Paixão”.
Na ocasião ele estava na china no meio de uma epidemia de cólera. Sua mulher dizia que admirava as freiras por fazer um trabalho voluntário tão bom com as crianças, ele retruca dizendo que as freiras até compram crianças nos braços de jovens mães:

“- Também vão a jovens mães nas suas casas. Estão pedindo que dêem os seus bebes ao convento. Oferecem-lhes dinheiro para sustentar as famílias para as persuadirem a fazê-lo. As suas freiras não estão só aqui para gerir o orfanato. Estão a tornar essas crianças em pequenos católicos. Nenhum de nós está na China sem uma razão.”

Vejam só, o cristianismo também rapta crianças para salvá-los da poeira não é? Que coisa mais estranha, e todo mundo achando linda a evangelização missionária. Tadinhos dos pequenos, não podem nem escolher continuar com seu dimmon, sua poeira, seu avatar ou pensamento livre. Condicionados a obedecer um todo-poderoso, são incapazes de futuramente questioná-lo.

Concluindo... A Bússola Dourada me fez sentir nojo das Crônicas de Nárnia.


posted by TRUNKAEL H MAIRS 3:29 PM

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Domingo, Março 16, 2008


O desfecho

Depois de deixado na porta de casa, ele para em frente ao portão e pensa que poderia ter mais poesia em sua decepção, por isso resolve não entrar, se encaminha à padaria. Não deve ser muito comum alguém entrar na padaria 6 horas da manhã, de terno e gravata, e ainda pedir um café. Não é comum, mas é poético.
Dessa vez ele não conseguia esboçar um sorriso simpático, só uma risadinha cínica, típica de quem está em desespero. Colocou muito açúcar pra ver se deixava a própria vida mais doce. Vislumbrou seu reflexo depressivo no café, saboreou sua dor. Perambulou um pouco pela padaria com sua xícara na mão, saiu e fumou um cigarro com formato de amargura.
Achou poético não ter que pagar por saborear a própria dor. Ao voltar pra casa poderia florear mais sua poesia sentando por um tempo no banco da praça, mas resolveu que o cansaço não é tão poético e adormeceu um sono profundo, acordando dentro dos Fossos da Morte de Rath.


posted by TRUNKAEL H MAIRS 5:26 PM

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Sábado, Março 15, 2008


Sobre as personalidades que usamos para encontrar nossa própria

Esse é um post-irmão deste aqui, e abrange unicamente minha própria experiência nesse jogo interpretativo. Quando Duanne me pediu um título para o post dele eu sugeri “deus está morto”, pois afinal, Gary Gygax criou muitos mundos. Ele morreu e B.M. se sentiu tentado a fazer um post sobre o RPG, conversamos um pouco sobre isso e percebemos que o RPG teve papel fundamental na nossa formação intelectual, por isso contemplarei meu passado por alguns instantes.

Na cidade de Nintendo World 1, no Universo On Line, começa nossa história, onde viviam duas famílias inimigas: os SSJ e os UD! Todos os dias havia provocações e brigas entre pessoas dessas famílias, até que o rei “Anonymous 1” resolveu acabar de uma vez por todas com aquela confusão...

Assim começa uma das tantas histórias que se passava no planeta NW. Nos primórdios da internet não existia nada além das salas de bate-papo da UOL. Por incrível sorte eu encontrei uma sala de RPG do meu anime favorito na época: Dragon Ball Z. Você chegava a qualquer hora e tinha pessoas lutando, conspirando, alistando guerreiros.
Depois de dar um golpe de estado no clã onde eu era vice-presidente eu dava início a uma idéia mais ambiciosa, dominar a NW. É claro que isso tomava tempo, mas pela minha falta de socialização aqui no mundo real, não foi difícil ganhar alguma influência ali.


Eu era um típico nerd, estava na internet justamente por não ter com quem sair pras baladas no auge dos meus 15 anos. O RPG on-line era a melhor forma de socialização que eu tinha, era lá que eu fazia amigos, namorava, abrandava guerras diplomaticamente.
Hoje eu gritaria bem alto para esse antigo Rafael: “Acorda pra vida meu filho, você NÃO é o Trunkael, existe um mundo enorme aqui fora”
Mas não é bem assim, aquela minha vida virtual me ensinou muita coisa, creio inclusive, que eu não teria voltado meus olhos ao mundo real se eu não tivesse a experiência do quanto é divertido interpretar aquelas histórias. Eu vim para o mundo real com a vontade de fazer da minha vida uma eterna aventura, assim como na NW ou nas minhas várias sessões de RPG com meu clã I.S. (esse de RPG de mesa mesmo, pessoas reais, livros reais, velas, vinho, etc).


Em resumo, Trunkael era muito mais vivo do que eu, tinha muito mais presença, era a pessoa que eu gostaria de ser aqui fora, e veja bem, tirando os super poderes, me transformei nele. Minha forma concentrada de mim mesmo anda pelo mundo real depois de ser formada e transformada dentro de um mundo imaginário.
Experimentei tantas personalidades em meus jogos que me tornar mais simpático e empático foi algo natural. Obtive mais auto-conhecimento quando meus personagens apontavam meus erros. O RPG me ajudou a perder o medo, a timidez, a inércia. Me fez perceber que para mudar o mundo, começamos mudando nosso ponto de vista.


Mas afinal, mudei para chegar a nível de um personagem, ou me revelei ser tal personagem? Quem era mais real, o antigo Rafael tímido e medroso, ou o guerreiro Z? As vezes acho que sempre fui esse personagem, alguma força misteriosa que o prendia num lugar quase inacessível dentro de meu inconsciente, felizmente o RPG me ajudou a libertá-lo.


posted by TRUNKAEL H MAIRS 9:16 PM

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Prelúdio

Um friozinho na barriga, um medo semi-racional determinado por n variáveis, mas uma vontade que conseguirá ultrapassar essas barreiras.
Já tomei decisões muito mais importantes em minha vida sem ter que experimentar a hesitação. Mudei de cidade, larguei emprego, montei minha empresa. Basicamente tudo que eu poderia fazer dar certo sendo protagonista dos acontecimentos não me dá medo. Mas quando tenho que esperar a decisão de outra pessoa todas as minhas incertezas vem à tona.
O mais interessante é que nessas pequenas jogadas, justo essas que não posso controlar as variáveis, são as que nada tenho a perder. É uma aposta que nada tenho que pagar (constrangimento e aumento de complexo de inferioridade não são moedas tão importantes).
Ganhando tenho o mundo em minhas mãos, terei todos os meus problemas resolvidos, a felicidade vem instantânea. Pelo menos até a próxima semana.
Sempre dou valor a essas pequenas coisas, pois me parece que elas são mais determinantes em minha vida do que qualquer outra. Tento deixar de pensar no momento propício, tento não decorar um discurso, tento deixar as coisas rolarem. Mas elas não rolam, tenho que agir. Se eu levar um fora... walk on


posted by TRUNKAEL H MAIRS 2:10 AM

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Terça-feira, Março 11, 2008


Sangue de barata

Acabo de assistir o filme de nome similar a esse título, mas a única coisa que devo falar sobre ele é que me surpreendi com o desfecho, e juntando com o e-mail enviado ao Círculo mais cedo, senti eu mesmo o protagonista daquela cena.

Não foi uma jogada tão sádica assim de minha parte, como alguns de vocês poderiam pensar (felizmente o Duanne não entendeu assim), eu só estava interpretando meu papel, afinal recebi o chamado a isso no texto do b.m.
Mas agora que posso falar mais sobre isso sem impetuosidade, percebo que há um monte de coisas a serem pensadas sobre a mensagem do Duanne, principalmente no que diz respeito ao crescente sentimento de humanidade que temos, quando nos deparamos com situações como a citada.

Se nos tornamos tão impotentes diante de uma situação assim, nada mais natural que esperar que um ser com super-poderes intervenha em nosso lugar. O contrário seria simplesmente esquecer da sua própria impotência e se concentrar naquilo que você efetivamente pode fazer de bom nessas situações.
Como era de se esperar, eu fico com a segunda opção e pela frieza de minhas palavras vocês tem toda a razão de me achar um sangue de barata.

Mas tem tão displicente assim, logo procurei o b.m. para saber o que afinal ele queria nessa discussão, pois as duas pessoas que responderam, eu e o John, tiveram posicionamento completamente diferentes, eu simplesmente ataquei uma religião, o John ofereceu uma oração. Claro que pensei na mesma hora que eu tinha errado bruscamente. Felizmente não foi o caso.

Abrangendo mais o assunto, não estou tão internamente envolvido com os argumentos que expus quanto parece. A certeza de que na verdade sou tão crente quanto qualquer evangélico sempre bate à minha porta. Só que não há doutrina, não há messias, só há um mar de argumentos no meio do caos.
Bom, a minha intenção inicial não era me defender dessa maneira, mas pelo que parece senti necessidade disso ao decorrer do texto.

Para comentar uma outra parte que vejo com extrema importância, me voltarei ao empirismo. A cada dia que passa vemos nossas teorias caírem por terra quando um fato efetivamente desencadeia. Creio que esse foi o caso do b.m. e o que ele recorreu foi à experiência de seus amigos, que não resolvem o problema, mas pelo menos serve como jurisprudência para aplacar sua dor.


posted by TRUNKAEL H MAIRS 12:58 AM

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Sexta-feira, Março 07, 2008


Onde eu não tenho vez

Acabo de assistir o filme que esse título sugere, mas dele nada vou comentar. São quase 6h da manhã e estou aqui esperando os arquivos irem para o servidor. Já virei noite várias vezes trabalhando. Mas hoje me parece algo mais divertido. Não pelo fato de poder assistir um filme enquanto a computação gráfica renderiza, mas por aproveitar melhor a profunda calma da madrugada.
Os pensamentos se parecem um pouco como epifanias nessa hora, pois mesmo que o sono não venha o cérebro está cansado. Felizmente meu cérebro não tem desligado sozinho como o meu laptop, mas não é algo impossível de acontecer uma hora dessas.
Para mim, trabalhar nesses grandes projetos é praticamente uma terapia. Eu estava um pouco chateado por ter levado um fora da única moça que resolvi mandar um e-mail filosófico antes de conhecê-la. O interessante é que ela me respondeu dizendo “nossa, que texto bacana, quem é vc? Onde vc mora?
Blá, blá, blá. Não deu em nada. E agora estou acordado deixando pensamentos livres voarem pela sala, inutilmente esperando que um deles pouse sobre meu ombro para que eu possa fazer um post mais interessante.
Essa questão de “vomitar filosofia” (como disse b.m. há um tempo atrás) sempre me intrigou. Às vezes acho que as pessoas não estão preparadas, ai me deparo com seres questionadores na casca de quem pensei não ter cérebro. Em outras ocasiões puxo assuntos bacanas com pessoas bacanas e lá me vem uma historinha que nada tem a ver com o assunto.
No caso dessa moça o que existiu foi a pura indiferença. Achei que talvez a curiosidade pudesse ter alguma importância nessa jogada, mas nada. Então vou deixar para vocês o e-mail que enviei, e me digam o quanto sou idiota.

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Olá *,

Mesmo cético que sou para certos assuntos, uma série de coincidências acabaram por chamar minha atenção. Mas antes de falar de coincidências, há alguns devaneios que eu gostaria de compartilhar com você.

Em algumas ocasiões eu questionei o quanto o formato do rosto de uma pessoa pode ser decisivo nas escolhas sociais. Não que seja sempre uma beleza exagerada ou uma simetria que beira a perfeição. Falo especificamente da beleza que normalmente só você vê na pessoa, algo que vai além do físico, um jeito, uma careta, um sorriso.
Estou quase certo de que o tempo todo buscamos pelo mesmo tipo de pessoa instintivamente. E há quem diga que isso é comprovado por algumas teorias. Buscando no meu passado, vejo namoradas parecidas, amigos parecidos, círculos sociais iguais em sua utilidade (ou inutilidade).
Claro que não creio que essa atração primária possa criar laço afetivo imediato, ou ser recíproca. Mas certamente é um caminho um pouco mais tranqüilo do que o desconhecido absoluto. E até coloco uma crítica, pois se buscamos o tempo todo por pessoas parecidas com outras de nosso passado, então é no mínimo uma preguiça danada não buscar o efetivamente o novo. No entanto, as experiências empíricas podem servir de argumento para a sinergia que poderia se repetir nesses casos específicos.

Outra questão que tenho estudado de perto é a facilidade ou dificuldade de conhecer uma pessoa. Não especificamente um conhecimento social, mas uma olhadinha naquele ‘eu’ que fica escondido lá no fundo. Uma descrição de Orkut obviamente não dá conta de mostrar nem um pedacinho de sua essência. Mas certamente pode dar boas dicas. Com um pouquinho de atenção nos discursos pessoais, você sabe bem quem você quer afastar de sua vida, e quem quer aproximar.
Claro que mediando esse mar de probabilidades há o personagem que criamos e apresentamos ao mundo. E não estou falando de ser “duas caras”, por que nesse caso, até mesmo nós acreditamos no personagem. Esse mediador é importante para uma convivência social pacífica. Ter um mundo de pessoas desnudas de máscaras ocasionaria eternos conflitos e uma solidão difícil de aturar. Não agimos exatamente do modo que gostaríamos e não falamos tudo que gostaríamos de expor. Algumas vezes por repressão moral e outras por respeito mesmo.

Para isso aumentamos um pouquinho de nossa tolerância, enquanto diminuímos a força de nossas convicções. Isso poderia ser tachado como covardia para os menos avisados, mas é um mecanismo natural de defesa. Não podemos culpar uma pessoa que demonstra só qualidades e esconde os defeitos, pois afinal, quem andaria com uma lista de defeitos próprios na ponta da língua? Certamente alguém com um estado de egocentrismo as avessas.
Penso nisso por que é comum hoje em dia ter amizades superficiais, namoros por conveniência e conexões frágeis. Possivelmente o ser humano toma essa posição pelo simples medo de se manter em um estado de solidão.
No entanto ainda existem aqueles que tocam e se deixam tocar em sua real natureza, mesmo que exista uma enorme possibilidade de decepção (extremamente comum), ainda há quem se arrisque, pois esse estado de êxtase onde as almas se encontram, é um bem tão raro quanto prazeroso.
Nesses e outros casos onde a emoção impera, me condeno por racionalizar demais aquilo que deveria ser puro sentimento, mas é um defeito meu, que tenho que aprender a dominar.

Quando você diz que nunca teve amigos de verdade, mas ainda sim vive cercada de colegas (atraídos pelo magnetismo de sua simpatia), nem parece um sentimento pessoal, mas sim um sentimento universal. É como se uma grande epidemia de superficialidade assolasse o mundo.
As pessoas estão viciadas na adaptação imediata de sua própria persona, e acabam por não querer interferir tanto na existência alheia para proteger a própria individualidade ( que talvez, tenha sido violada em outros tempos). Assim se acostuma e acomoda nas conexões quase fictícias de um grupo específico, ou vários grupos não interligados.
É claro que não posso julgar essa atuação (afinal, quem pode?), pois também é uma realidade minha. Apesar de ter amigos de verdade, uma vida mais ou menos comum necessita de um circulo social mais diversificado. No entanto poucas vezes me contento com a superficialidade, e assim vou peneirando até saber quais pessoas eu posso dividir um pouco de minha vida, ou pelo menos ter uma conversa menos banal.

Se eu fosse resumir isso tudo num exemplo mais prático, posso citar imediatamente esse texto, que exprime uma vontade, mas que ainda é unilateral. Todo o medo que guardamos das pessoas é quanto a possível não bilateralidade das vontades (sentimentos, idéias, discursos,etc). Arriscar-se torna cada vez mais incomum.
Agora você me pergunta: E daí? (Afinal não tens que escutar meus devaneios.)
Eu mesmo me pergunto o por que de todo esse discurso, pois não há nenhuma razão clara para o ter escrito, a não ser a de deixar transparecer a vontade de te conhecer.
Nesse momento, tanto eu quanto você percebemos que foi uma enrolação danada para algo tão simples. Mas convenhamos que é muito mais divertido e proveitoso uma conversa assim, do que a possível superficialidade que poderia se perpetuar caso eu me levantasse de minha cadeira para te conhecer socialmente num bar ou mesmo através da mediação de um Orkut ou MSN. ^__^

Bom, eu poderia continuar inventando argumentos contrários e me defendendo de possíveis acusações, mas vou deixar uma grande lacuna que será preenchida pela sua interpretação.

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blá, blá, blá


posted by TRUNKAEL H MAIRS 5:52 AM

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Terça-feira, Março 04, 2008


Destino é construir uma ponte de possibilidades para seu amor

Essa frase é dita no filme “My Sassy Girl" (na versão coreana de 2001), assisti logo depois que minha internet subitamente caiu durante uma discussão sobre o amor. Eu, Duanne, Darwin e Deyvson discutindo freneticamente essa coisa inefável. O filme coincidiu com a discussão, e deu respostas melhores que a mesma.
Um rapaz ajuda uma garota bêbada e acaba por não sair mais da vida dela. Seria simples se fosse só isso, mas a mocinha é mais durona que o Capitão Nascimento, portanto o cara passa umas muitas e boas com ela.

A partir daí vou começar com o primeiro devaneio sobre o amor. Sua utilidade.

Por que afinal o mocinho do filme sempre levava ferro, apanhava dela, da própria mãe, era preso, e ainda continuava com a menina? E o pior é que nem namorados eram, nunca se beijaram, ela não dava nenhuma esperança pra ele. Por que afinal continuava com ela?
Bom, esse tipo de amor me parece o mais estranho. Eu poderia dizer que era uma paixão arrebatadora. Ou talvez por ele ter tocado o destino dela, sentia necessidade de protegê-la. Mas também poderia ser algo mais físico inicialmente, afinal era a garota mais próxima que ela tinha, portanto a melhor possibilidade de perder a virgindade.

Talvez exista três estados de paixão antes do amor em si, primeiro uma paixão física, você gosta da pessoa pelo sexo (ou a possibilidade dele), depois se apaixona pelo comportamento da pessoa, até que você começa a conhecer a pessoa de verdade, e ainda assim está apaixonado.

Depois dos três estágios da paixão, o fogo se cessa dando lugar ao amor. E o amor também passa pelos mesmos estágios, só que não no ponto de vista de elevar aquelas qualidades que você gosta, mas tolerar os defeitos que até então não importavam.
O amor é feito de tolerância. Se você consegue continuar sentindo prazer no sexo, e esse prazer sobrepõe às imperfeições, o primeiro estágio do amor foi concretizado.
O segundo estágio seria a tolerância dos “defeitos" comportamentais, todo mundo tem incompatibilidades nesses pontos, afinal cada um vê a vida sob uma ótica diferente. No começo você nem percebe essas diferenças, parece que foram feitos um para o outro. No entanto com um pouquinho de tempo todas as opiniões parecem divergir. Tolerar essas diferenças é alcançar o segundo estágio.
O mais difícil a meu ver seria a tolerância intelectual. E não falo de níveis diferentes, mas convicções diferentes. Duas pessoas igualmente inteligentes poderiam ser completamente divergente em vários pontos, principalmente religião, política e filosofia de vida.

Esse pontos comentados não são regra em lugar nenhum, é somente uma pequena separação dos pontos principais de um relacionamento. Claro que há muitas variáveis a mais para se levar em conta, e isso será diferente para cada pessoa. Talvez a satisfação emocional compense as incompatibilidades intelectuais por exemplo. Uma menina que beija mal talvez seja tão bacana que isso nem importe.
É nessas compensações que casamentos duram ou acabam. O que segura no começo é a paixão, depois os filhos, quando chega na hora do amor a coisa desanda (ou não). O amor pelos filhos pode segurar o casamento por um tempo até que ambos resolvam o que fazer a partir dali. Claro que uma família unida e bem estruturada pode compensar a intolerância dos cônjuges, embora isso não seja mais tão comum.

A outra parte da discussão se refere à própria existência do amor, que poderia ser apenas um misto de vários sentimentos. Talvez amor seja uma amizade incendiada, como já disse Jeremy Taylor. Que tal uma mistura de carinho, instinto (p)maternal e instinto sexual?
Ou é carência com possessividade? Na hora as pessoas entendem que existem vários tipos de amor, uns com mais ciúmes que outros, alguns com mais carinho, etc.
A possessividade foi o tema discutido na micro-reunião do Círculo de Blogs (mencionada no primeiro parágrafo). Se levarmos o amor como uma reunião de outros sentimentos, e ele por si mesmo não existir, então é possível que a possessividade seja confundida com o amor. Mas se o amor existe intrinsecamente por si mesmo, então não há lugar para a possessividade ou ciúmes.
No caso do amor real (alma gêmeas e tal) o primeiro conjunto de “regras" que apresentei é invalidado. Mas se o amor é construído com uma gama de outros sentimentos, então faz muito sentido a frase do título, afinal temos que esquecer da sorte e dar oportunidades para o amor se apresentar.
Mas essa é uma discussão que ainda vai longe. Digam vocês o que acham sobre isso.


posted by TRUNKAEL H MAIRS 2:10 PM

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Segunda-feira, Março 03, 2008


O segredo dentro da caixa

Acabo de assistir “The Bucket List” e questões que me parecem essenciais me assaltam por todos os lados. A base do filme é simples, dois homens com câncer se conhecem no quarto de hospital e sabendo que morrerão em 6 meses, escrevem uma lista das coisas que gostariam de fazer antes de morrer.
Como já foi comentado por outros, não há nada demais no roteiro, a supervalorização da família e da simplicidade já foi vista em “Um Homem de Família” e vários outros filmes de menor porte, mas dessa vez acho que pesquei algo diferente.
Em momentos do filme, assim como no discurso cristão, eu sempre via a busca pela simplicidade com olhos conspiratórios, como se Eles quisessem manter-nos em uma pequena caixa de possibilidades limitadas para tomar conta de todo o resto. Nesse caso, a família.
Intimamente eu acho que é possível viver feliz sem uma família bem estruturada, contanto que esteja preparado. O que parece uma contradição, pois é a família que tem o papel de te preparar seja para o que for, inclusive viver sem ela.

De longe o filme e obras do gênero me parecem fazer o papel de uma manutenção do status quo, mas de repente esbarrei em uma questão: e se for melhor viver dentro da caixa?
É uma pergunta reincidente, é claro. Em outros momentos eu citava a caverna de Platão, a Matrix ou a ignorância por si só. As perguntam sempre mudam, mas minha resposta não tinha mudado, e observando agora com um pouco mais de humildade decido que eu simplesmente não sei.
Esse agnosticismo até parece um câncer infectando todo o meu posicionamento, mas creio que não há resposta melhor. Pois eu simplesmente não sei se é melhor viver na ignorância ou na sabedoria, na Matrix ou fora dela, por que simplesmente não dá pra experimentar as duas possibilidades com a mesma intensidade para tirar uma conclusão.
Assim como à resposta para a pergunta “deus existe?” dependerá unicamente da fé da pessoa (seja a fé em sua existência ou a fé em sua inexistência) eu responderei com tranqüilidade: “Não sei”.

Se você procurar nesse blog verá várias teorias sobre a felicidade, deus e sabedoria. Mas são só experimentos argumentativos. Pois apesar de eu gostar de minha posição anti-religião, eu não sei se seria mais feliz sendo um religioso, pois afinal nunca fui.
Pior ainda se eu falar que a ignorância é uma benção, apontando para os outros, visto que não tenho nenhum real argumento para me posicionar como pessoa sábia.
No entanto, seria sempre uma resposta muito fácil falar “não sei”. Afinal, o que sei então?
Sei só do que vivi. Para falar sobre a família (no caso, formada por mim), eu deveria experimentá-la primeiro.
Se montar uma família fosse uma opção atual, na certa eu me sentiria arrependido pelas tantas coisas que não fiz enquanto estou solteiro. Mas acabo vivendo em função de uma teoria sobre a prática onde no final a prática em si não é sequer vivida (...).
Se sou solteiro e tenho medo de formar uma família pelas coisas que ainda não fiz, por que então não vivo essas malditas coisas de uma vez pra acabar logo com isso?
Nesse momento toda a alegoria da caverna pode ser resumida em buscar a simplicidade ou não. Apenas pelo fato da simplicidade ser mais comum, não quer dizer que é o interior da caverna. Hora, poderia ser o lado de fora sim, quem sou eu para determinar?

Muitas e muitas vezes numa tentativa de discurso relativista falo um monte de bobagens deterministas sem analisar direito as questões.
Claro que se eu fosse me basear só na prática, eu poderia discutir sobre como viver melhor a vida só depois de ter vivido toda ela, portanto a masturbação teórica serve só como divertimento intelectual. Não chega nem perto de ser uma verdade absoluta ou sistema filosófico perfeito (principalmente por que não creio na existência de nenhum dos dois [ai sim há uma questão de fé, a-há]).
O fato é que estou ficando meio cansado de minha própria inércia. Me julgo empirista mas pouco faço de realmente empírico. Sempre me mando viver mais intensamente, mas parece que nada que faço é realmente intenso. Por tanto me deparo com essas questões desconcertantes o tempo todo, como se o mundo quisesse me dizer que estou correndo pro lado errado.

Não se resume em seguir a correnteza, pois afinal cada um de nós está num rio separado por variáveis infinitas, sendo que a única coisa comum entre todos, o mar para o qual corremos, é a morte.
Não há efetivamente nada que seja bom para todas as pessoas (Kant estava errado!), a gente fica só remendando estilos de vida pra tentar achar o que nos serve mais, e possivelmente sempre vai ficar meio justo ou meio largo.
A proposta da vida perfeita me parece, de longe, a maior das impossibilidades. Ninguém morrerá completamente satisfeito por que ninguém nunca terá vivido o bastante. Mesmo a morte das expectativas me parece uma ilusão nesse ponto, o cinismo filosófico é uma boa teoria, mas não passa de uma teoria, pois simplesmente não podemos nos desfazer de nossas vontades como se tirássemos a roupa.
É claro que para essa colocação também há um contra-argumento que cai bem, pois não é pelo fato de eu nunca poder chegar à iluminação suprema do budismo que ela não exista. Ai voltaremos à questão da fé, e a única resposta que poderei dar é: “Não sei”.


posted by TRUNKAEL H MAIRS 2:37 AM

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