Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não atem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.
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Quinta-feira, Dezembro 11, 2008
O Silêncio
A parte mais interessante de as pessoas discordarem de mim é que eu não preciso dar a mínima para opinião delas.
A parte mais interessante de receber conselhos é fingir que está levando eles a sério.
A parte mais interessante do silêncio é que você erra menos ficando calado.
Durante o dia tenho que escolher entre música alta ou conversas intermitentes, chego em casa exusto mesmo que eu não tenha nem levantado da cadeira durante o dia. A melhor hora que existe é no sono, silencioso e trazendo sonhos muito mais prazerosos que a realidade.
A base de toda decepção é a expectativa, se passamos a viver sem expectativa ou esperança então não temos mais decepção. O sentimento de traição é apenas a quebra de expectativa, a morte de pessoas queridas é quebra de expectativa, o rompimento de um relacionamento contradiz a esperança. Sem o ultimo dos males saido da caixa de Pandora, seríamos mais realizados.
Assim como a crise a depressão é um ciclo vicioso, você fica de mal com o mundo e começa a destratar as pessoas, dai as pessoas começam a te ignorar ou dar conselhos imbecis, então você ainda mais puto e começa a ser agressivo com todos, que acabam por ficarem putos com você e te destratarem, xingarem, pisarem, ignorarem etc. O que te faz ficar ainda mais puto com o mundo.
Vez ou outra encontro pessoas que também parecem repelir naturalmente o sistema, não com aquele asco idealista contra todo tipo de padrão, mas com um sutil desinteresse pelo consumismo, ou uma anti-ambição capitalista. É o tipo de pessoa que gostaria de ter dinheiro não pra acumular bens, mas para viajar aos quatro cantos do mundo.
Gosto disso quando parece algo inocente, sem aquela ideologia pesada por trás, sem saber quem foi Marx. Parece que não é por querer, como se fosse imune ao vírus do capitalismo.
Mas antes que eu continue deleitando com essa idéia uma antítese invade minha mente. Será que essa imunidade é tão repelente assim? Talvez seja apenas alguém que não tem dinheiro, e nem força de vontade para ganhá-lo, e acaba por se acostumar com a vida simples, sem gadgets da Apple ou carro tunado.
Será que é o antigo tímido? Que odiava os populares simplesmente por que queriam ser como eles? Que na verdade era um antipático usando a mascara da timidez para não ter que assumir sua parcela de simpatia com o próximo.
As vezes da vontade de escrever uma história secreta, algo impossível de ser escrito a partir de meus próprios pontos de vista.
E no sétimo dia, eu descansei - O tomo secreto de minha epifania
primeira semana
Não havia nenhum plano, não havia sequer força de vontade. A epifania aconteceu na manhã de um domingo. Acordei de ressaca (como todos os domingos) e tentei lembrar da noite anterior. Lembrei que era a primeira vez que não encontrei nenhum conhecido no bar que freqüento há 2 anos. Sentei lá fora, acendi um cigarro e comecei a ligar paras pessoas.
Não, ninguém iria hoje. Então comecei a beber sozinho, e fumar como se esperasse alguém, ou como se alguma coisa fosse acontecer. No final das contas eu simplesmente fiquei estupidamente bêbado e a partir dai não me lembro de mais nada.
Um olhar dos últimos anos quase me faz ficar triste por um momento. Minha sede de conhecimento deu lugar a um hedonismo neurótico. No entanto acho que esse foi meu day off, uma pequena parada pra aproveitar a vida, aproveitar sensações de maneira irresponsável. Não houve grande evolução em conhecimento teórico, mas houve uma avalanche de conhecimento empírico.
Portanto, mesmo agora que me recai novamente a lucidez, não posso dizer que perdi esses 2 últimos anos de minha vida, claro que não, eles foram muito bem vividos, me diverti muito, fiz coisas bacanas, conheci muita gente interessante. Quando começou um “concurso” de quem ficava mais louco, eu ganhava. Era como estar nas nuvens. Nuvens de tempestade. Pois você sente que está em cima, mas também flerta com o perigo.
Se há um limite para um estado de consciência alterado, creio que cheguei nesse limite, me tornei outra pessoa, me tornei diversas outras pessoas e então me perdi. Uma das causas dessa epifania foi eu ter perdido minha identidade. Antes eu tinha uma idéia mais ou menos clara do que eu era, e o blog tinha ajudado muito nisso, eu sempre discutia aqui os pormenores de todos os meus pensamentos (mesmo que subliminarmente). Hoje já nem escrevo.
Claro que não virei um zen budista de uma hora pra outra, na verdade acho que ninguém percebe a diferença, a não ser que eu fale sobre isso. A única mudança perceptível é que parei de fumar. Não havia planejado, mas no domingo, quando deu umas 8 da noite é que eu lembrei do cigarro. Até então eu não tinha lembrado que eu fumava. Resolvi não fumar, essa foi a primeira resolução, e passei o domingo sem nicotina.
Quando você decide, sem nenhuma razão específica, mudar seus hábitos, e consegue fazer isso, então você tem um domínio melhor do seu corpo. Me perceber tendo calafrios de abstinência quando alguém acende um cigarro é patético. Meu corpo deve obedecer minha vontade, e minha mente vai prevalecer sobre meus vícios.
Uma coisa muito interessante é que a maioria das pessoas a nossa volta acha uma mudança como essa algo negativo. Aos poucos vou deixar de beber, e talvez deixar de sair por uns tempos, isso faz com que o grupo de pessoas que eu saia ache que eu mudei para pior. Por outro lado, um amigo deslumbrado com certa religião vê em mim um crescimento, e acha que para que me torne perfeito só falta entrar pra religião dele.
Das questões que mais me interesso são essas certezas. Cada um tem tanta certeza de que está no caminho certo, que parece que todos são iluminados, messias que vieram ajudar as outras pessoas a encontrar a luz. Talvez uma das coisas que me incomodasse no meu antigo eu era essa mania de messias. Eu era obstinado em doutrinar pessoas, eu era o caminho da verdade e da vida.
Uma puta babaquisse mesmo.
Não sei nem viver minha própria vida, quanto mais direcionar as dos outros. Cada dia que passa percebo que sou um pouco mais idiota, não por que minha mente tem se degenerado, mas por que aumentou minha percepção sobre minha própria idiotice.
Em cada época de minha vida eu tinha uma habilidade ou virtude que gostava muito, só que toda vez que eu adquiria outra virtude eu perdia uma anterior, ou ganhava um vício. Como fui muitos Rafaeis durante essa vida, acho que chegou a hora de resgatar as virtudes e descartar os vícios.
A partir de agora volto no tempo, não como regressão, mas como resgate às virtudes que eu cultivava na época. E se eu não tinha as habilidades sociais que hoje tenho quando alcoolizado, agora terei que cultivá-las também enquanto completamente lúcido.
Esse é meu desafio, vamos ver até onde vai minha força de vontade.
segunda semana
Nesse momento acabo de apagar um cigarro, esse é o segundo de hoje. Apesar de ter ficado 2 semanas sem dar nenhum trago eu sucumbi no ultimo fim de semana, e agora quando chego em casa estressado acabo fumando o único cigarro do dia.
Depois dessas 3 semanas em que comecei a escrever esse texto me sinto mais perdido. A idéia era justamente me encontrar, mas parece que quando se está disposto a mudar o universo todo conspira pela inércia. É como a luta dos “magos” contra o paradigma, a transformação da realidade é algo possível, no entanto o paradoxo criado pelo paradigma vigente contrapondo sua vontade acaba por te machucar.
Então nos dias em que estou com essa vontade de mudança são o dia em que mais sou torturado. Hoje por um descuido eu dormi depois da aula e quando cheguei ao trabalho atrasado fui recebido com fúria. Fui empático aos furiosos, mas nenhum deles foi empático comigo. Meu mutismo denunciava mais que minha raiva, denunciava minha dor em não ser compreendido.
Já se passam vários meses que não tenho nenhuma relação intíma, e me parece extremamente difícil o jogo da conquista. Depois de ter feito investidas quixotescas em moças escolhidas a dedo e de ter levado fora de todas parece, que simplesmente desisti de gastar qualquer energia que fosse com esse propósito.
Sempre fui abastecido por amores platônicos, enquanto eu ficava apaixonado por personagens que eu desenhava sobre algumas mulheres, eu pelo menos sentia que tinha alguma missão a cumprir. Com o coração vazio como estou agora tudo parece tão sem sentido que nada me da prazer.
O trabalho era uma de minhas fugas mais interessantes pois pelo menos me rendia resultados palpáveis no final do mês, mas agora é apenas uma forma de passar o tempo e garantir minha sobrevivência.
terceira semana
Essa jornada por mudança é encarado por todos como algo ruim, e admito que me tornei ainda menos tolerante e mais irresponsável. O que me salva de um dia vazio como todos esses últimos é um pouco de Lineage e a leitura d’O Mago na madrugada. Sempre que deito em minha cama procurando o sono a minha percepção parece evoluir e meus pensamentos montam uma visão dantesca sobre minha existência. Penso em escrever sobre isso, me levanto, olho para o computador e novamente deito, incapaz de escrever qualquer coisa lógica naquele momento.
A comunicação lógica parece nunca dar conta do puro sentimento de completude que tenho quando estou tentando dormir e logo na primeira tentativa de colocar aquilo em palavras meu raciocínio falha e novamente me deito, derrotado e insone.
Por todos os lados há sábios me dando as respostas para minhas angustias, receitando atitudes como se fossem doutores milagrosos. Os conselhos me irritam principalmente por que me espelho nesses doutores, outrora era eu, que mesmo em depressão conseguia levantar o astral de todos e dar conselhos diversos sobre como se tornar uma pessoa mais satisfeita e feliz.
Se eu nunca consegui seguir os meus próprios conselhos creio que minha prepotência nunca ame deixará seguir o conselhos de outros. O que me sobra finalmente é a pura solidão, pois não encontro conforto nem nos meus iguais.
Relendo alguns textos antigos eu percebo que essa fase não se parece nenhum pouco com as outras. Antigamente eu escrevia para buscar uma solução, era como um diálogo com meu inconsciente, e logo que publicava minhas angustias parece que as coisas voltavam a fazer sentido.
Dessa fez não há essa esperança. Releio esse texto por vários dias e não encontro respostas. Creio que não é uma depressão como das outras vezes por que não estou inerte, vivo em movimento. Creio que tem a ver com stress puro e simples, uma doença normal para a pessoa normal que sou.
A outra diferença é que não procuro uma solução efetiva para o problema. Quando comecei esse texto eu tinha todo um roteiro sobre como viver melhor, parar de fumar era só o começo, depois viria a alimentação saudável, a simpatia gratuita e a tolerância. Mas a cada dia que tomo uma pedrada da vida me sinto menos propelido a buscar essas mudanças.
Dessa vez não é nada complexo como as várias mudanças de paradigma que supostamente passei, é a pura desistência mesmo, a vontade de não tentar mais sair do fundo do poço, de se deixar ser levado pela vida, pela correnteza sem, no entanto, dar ouvido às pessoas que me cercam. Eles parecem estar em outro mundo, mundo esse que não me sinto mais habitante.
Apesar de ter voltado a ler, não consigo mais meditar.
Nessa ultima sexta feira veio um telefonema inesperado, meu irmão me convidou a ir a Itabira. Eu já estava mesmo querendo aparecer por lá, afina tinha muito tempo que eu estava para servir de elo unificador do clã I.S. apenas quando vou para lá que eles se reúnem, e eu já havia falhado as outras vezes em parte pela preguiça de viajar, e também pelo desenrolar da epifania.
Mas depois do clima pesado que rolou na agencia essa ultima semana, nada melhor que conversar com meus amigos de verdade, aqueles que com certeza não se irritariam comigo por motivos capitalistas, pois afinal eles não tinham interesses absolutos no meus sucesso, pois não estava atrelado ao deles.
Esses amigos de verdade, que tomamos por um clã, seriam o motivo principal para eu passar apenas uma noite em minha cidade natal, noite essa em que fiquei inteiramente com eles até que amanhecesse. As reuniões I.S. são baseadas na mesma pauta: o que cada um tem feito da vida, e o desenrolar das ações ao máximo de detalhes possíveis.
Não que isso fosse resolver problemas, apesar de ouvir conselhos sobre o que eu poderia fazer para reverter a situação citada, não estava ali para resolver um problema em si, mas para desabafar o que agora eu não poderia desabafar aos meus “amigos” daqui. Amigos entre aspas pois decidimos abdicar de nossa amizade para construir uma sociedade.
Assim como é quase impossível manter a paixão de um namoro após um casamento, é igualmente improvável manter uma amizade depois que é colocado interesses maiores em jogo. Infelizmente o dinheiro tem o dom de ser um grande vilão em qualquer tipo de relação. E no meu caso, apesar de uma utopia imatura, não haveria de ser diferente.
Durante essa epifania que data quase um mês tenho aprendido muitas coisas e, com exceção da reunião I.S. que me reensinou o que é a amizade, a maioria dos ensinamentos me vem a partir do silêncio. As vezes Balthasar Grácian tem razão e o silencio é a melhor resposta.
quarta semana
Nesse mais um de muitos momento insones estou dentro de um ônibus a caminho de São Paulo, a idéia é atender in loco um de nosso mais promissores clientes, mas ao contrário de todas as expectativas as imagens que me surgem à mente não são de um bem sucedido trabalho, mas sim da possibilidade (remota) de encontrar pessoas que conheço apenas virtualmente, como Duanne, Letícia ou até Renan Peneluppi, que sem saber me deu um sopro de vida com um simples post sobre sua bicicleta.
Estranhamente a empresa parece fazer menos sentido perto das pessoas reais. Quando há dinheiro em jogo tudo são personagens, mascaras e atuação, quando estamos livres do dinheiro é que podemos conhecer as pessoas reais e é com essa ingenuidade que eu volto minha mente mais aos amigos que praticamente nada sabem sobre a empresa do que ao trabalho em si que deve ser realizado.
Não sei se é realmente um estado diferente de espírito ou um tipo diferente de depressão passageira, mas com certeza estou me sentindo muito mais leve, assim como me senti leve ao abandonar meu emprego, pois na minha visão eu não tinha nada a perder me arriscando em um negócio próprio. Não que isso seja um atestado de desistência, mas é no mínimo uma libertação.
Esse tempo que antigamente eu chamava de mudança de paradigmas parece muito mais calmo dessa vez, antes eu estava num tipo de nova revolução intelectual, um tipo de mudança de ponto de vista que acabava redundando num mesmo sistema filosófico (se é que posso dizer assim).
Fazia sem saber assim como fazem os caoistas, de tempos em tempos encarnam uma nova ideologia, sugam tudo que ela tem de bom e depois pulam para a próxima, como enxames de gafanhotos devorando colheitas. Aos me aproximar do caoismo percebi que até então foi muito bom eu ter me familiarizado com várias ideologias, filosofias ou até dogmas, pois é essa diversidade de sistemas que me possibilitará criar meu próprio.
Ou melhor, descobrir meu próprio sistema. Acabo por não acreditar numa simples bricolagem, como se o meio fosse tudo que pudesse moldar nossa realidade, creio que além do meio existe o fator genético, e também um fator energético, não baseado em qualquer misticismo, mas algo puramente quântico mesmo.
O número de variáveis nesse caso se torna infinito, burlando até algo que eu acreditava em certo grau, a teoria do eterno retorno (não representada alegoricamente por Nietzsche, mas fisicamente pela possibilidade de uma quantidade limitada de matéria realmente ter que repetir sua história levando em consideração a eternidade do tempo).
É nesse devaneio que separo essa epifania das tantas outras mudanças de paradigmas. O grande diferencial é que havia uma mudança, eu migrava de um paradigma para outro, dessa vez eu simplesmente tento sair do paradigma vigente, buscando o puro vácuo ideológico-cultural-filosóifico, para viver a pura experiência, sem prés nem prós.
Até nas minha constantes buscas amorosas (que sempre se revelaram frustradas) mudou-se de um sistema complexo de aproximação e manipulação para um estilo desinteressado de desejo. Antes eu era acometido por uma paixão puramente estética antes de qualquer investida, o que na certa me cegava para todos os problemas que acabei criando e me martirizando por eles.
As tentativas atuais vão manter um ritmo preguiçoso e lento. Não de maneira consciente ou programada, mas por ser esse mesmo o meu ritmo. Claro que pode ser um grande erro de minha parte se pensar isso de maneira racional, mas não é mais uma escolha, faz parte do caminho que resolvi percorrer.
Até então parece que esse estado zen era só uma teoria, mesmo quando eu comecei esse texto em casa, e meu quarto parecia meu refugio absoluto eu não imaginava o que é estar realmente liberto, insone às quase 6 da manhã em um ônibus me sinto iluminado. E se eu fosse procurar razões para isso rapidamente crucifico os 2 jogos com que gasto minhas noites, crucifico também a pornografia e qualquer outro tipo de distração.
Não há como estar liberto me preocupando com recursos de minha colônias ou com pontos para me tornar herói, não há liberdade quando a cada pensamento erótico baixo toneladas de pornografia para minha satisfação solitária. Agora parece que eu finalmente entendo a lei budista do desapego, o beneficio de matar suas necessidades e distrações para finalmente ascender à iluminação.
Enquanto amanhece o sono finalmente parece ter se lembrado de mim, presumo que ele só vence o cansaço do corpo, mas nunca de uma mente em criação.
Após serviço feito a sensação é de "pagamento de promessa", agora quitei minha dívida.