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    Não Sei Quantas Almas Tenho
    Fernando Pessoa

    Não sei quantas almas tenho.
    Cada momento mudei.
    Continuamente me estranho.
    Nunca me vi nem acabei.
    De tanto ser, só tenho alma.
    Quem tem alma não atem calma.
    Quem vê é só o que vê,
    Quem sente não é quem é,
    Atento ao que sou e vejo,
    Torno-me eles e não eu.
    Cada meu sonho ou desejo
    É do que nasce e não meu.
    Sou minha própria paisagem;
    Assisto à minha passagem,
    Diverso, móbil e só,
    Não sei sentir-me onde estou.
    Por isso, alheio, vou lendo
    Como páginas, meu ser.
    O que sogue não prevendo,
    O que passou a esquecer.
    Noto à margem do que li
    O que julguei que senti.
    Releio e digo: “Fui eu?”
    Deus sabe, porque o escreveu.
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    Domingo, Maio 24, 2009


    obre como se defender da influência do meio

    "cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o edifício inteiro." (Clarisse Lispector)

    Uma época especial em minha vida foi o segundo grau. Foi meu primeiro contato com a psicologia e a filosofia, também meu primeiro contato com a internet. Durante meu segundo grau tive um crescimento intelectual extremamente interessante, foi a época em que decidi parar de assistir televisão, questionar as regras e efetivamente sair da alienação proposta pelo meio.
    Talvez a energia de ativação primária foi assistir “Clube da Luta” durante uma das aulas de psicologia. A visão de que a sociedade capitalista minava minhas vontades reais, meu poder criativo e, efetivamente, meu próprio brilho individual se proliferou rapidamente em minha mente. Foi o começo da ruptura.
    Mesmo sendo um entendimento rudimentar eu sabia que não deveria aceitar tudo que a sociedade me impunha sem antes questionar. Rapidamente o questionar se tornou uma resistência e luta pela formação de minha própria identidade, independente do que o meio poderia me oferecer de imediato.

    O efeito colateral de tomar as rédeas de minha própria vida veio quase que imediato, a arrogância e prepotência surgiram como mecanismo de defesa para tudo que fosse externo a mim. Rapidamente comecei a rotular as pessoas de alienados, e num texto que em que eu destilava todo meu veneno nietzscheano (embora eu ainda nem conhecesse Nietzsche) eu chamei as pessoas comuns de “Pobres Mortais”.
    Ficou claro que eu achava que estava acima do resto do mundo, isso se refletia na minha antipatia por qualquer assunto mundano, eu queria fugir daquela adolescência imbecil que me cercava. Apesar da minha arrogância ser visivelmente reprovada pelos outros eu continuava, principalmente quando descobri que não estava só, encontrei adeptos que me deram força para continuar nesse caminho de resistência.

    O momento de lucidez veio durante uma viagem. Tendo conseguido contaminar os dez estudantes com minhas teorias percebi ainda mais a força de minhas palavras e meu poder de liderança. Mas também foi nessa viagem, especificamente no final dela, que percebi que tinha alguma coisa errada nisso tudo. Quando eu vi todos os outros chamando o resto do mundo de “Pobres Mortais” percebi o perigo de achar que o único caminho de resistência era pisando na cabeça dos demais.
    Depois disso tomei um caminho mais silencioso e entrei numa extensa busca intelectual, para finalmente me dar conta que os defeitos que eu tinha criado para me defender (arrogância e prepotência) não só me tornaria desagradável com todos, mas criaria um bloqueio intelectual que me impediria de efetivamente evoluir.

    Quando resolvi cortar os defeitos, efetivamente o prédio desabou.

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    Não posso colocar minha história como regra absoluta, mas acredito bastante nas minhas próprias experiências de vida quando se trata da validação de uma teoria. Tempos depois pude observar que outras pessoas que conseguiram se desvencilhar das amarras sociais também desenvolveram esses defeitos mencionados, ou pelo menos um tipo de apatia social.
    A primeira forma de defesa contra o meio requer um escudo apropriado e a apatia social, assim como a arrogância funcionam muito bem para criar e fazer a manutenção de nosso campo defensivo contra o sistema opressivo a nossa volta. Depois da consciência desse problema percebi que existem pelo menos três caminhos que as pessoas trilharam para se desvincular de tais defeitos.

    O primeiro, e possivelmente o mais usado, é simplesmente desistir de fazer resistência e voltar para os braços acolhedores do sistema. Mas parece que essa não seja uma resolução real do problema, pois até então não encontrei ninguém que permanecesse feliz depois de ter voltado a ser alienado pelo meio.
    O segundo, que é muito comum nos círculos intelectuais, é que essas pessoas ou não percebem, ou não querem considerar a existência desses defeitos (escudos) sociais. Elas simplesmente mantém sua prepotência, apatia ou arrogância e convivem com elas como se não existissem.
    O terceiro e mais doloroso caminho é lutar para se desfazer desses defeitos sociais e manter a resistência usando outros escudos. Essa é uma fase que pode nunca ser concretizada pois é uma luta diária, você deve se monitorar o tempo todo para entender como suas ações são vista pelas pessoas que convivem com você e como você pode melhorar suas relações.

    Observando superficialmente parece com a primeira opção, mas nesse caso o trabalho consiste não só na destruição desses defeitos, mas também na construção de virtudes que possam criar uma ponte suspensa até as pessoas que você gosta. Claro que o exercício de uma virtude como a empatia, por exemplo, é algo demorado e demanda muita disciplina. Desenvolver essas virtudes necessárias para manter uma vida social compensadora, apesar de não estar mais sob o manto opressor do sistema, será um trabalho para toda a vida.
    Continua..


    posted by TRUNKAEL H MAIRS 2:55 AM

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